quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Palavrear



- Você já mediu suas palavras hoje? 

- Como assim? 
Quantas palavras eu disse? 
Quantas letras usei?

– Não...  
Quais palavras, como disse, para quem

como elas se comportam ao vestirem sua voz 
ou 
quando tocam quem escutou

aquela briga entre os lábios,  
quando a palavra se faz  do  desencontro  de nosso olhar,  
e  vai saindo toda desajeitada

o gosto que passa pela boca no movimento das letras escolhendo  o salgado, 
o doce, 
o apimentado, 
o insípido
seu eco ressoando no labirinto da escuta

o olhar que clama pela sua palavra  
ela não tem jeito de arrumar-se  para sair

a palavra lambuzada de bom humor que  faz do alfabeto  só riso
   
                                     têm aquelas ditas sem vergonha na massa da torcida  

e a força indescritível da palavra que se faz multidão pela causa digna que grita 

                                                                  a palavra que nem foi dita,
                            mas cujo  sinal de partida faz tudo ficar na medida exata!


- Por onde andam minhas palavras...


sábado, 15 de setembro de 2012

Chover


Chove
Caminhei entre as pedras no  quebra-cabeça da calçada
Ao desviar  as poças   para traçar um  caminho
Pisei num jardim?! 

Após a batalha com o vento
Ficou o tapete de pétalas abandonadas
 Experimentei cada passo com as  cores do chão
Sorri
Tão colorido ficou meu olhar desta chuva

Anoitece
A cor da chuva virou ritmo
Gotas que tocam o vidro
Gotas que tocam a vida

E a  primavera que se escondeu
Nos dias do mês que aguarda  sua estação
A magia não perdeu 
Fez o cinza do caminho virar passo com ritmo colorido

Quando  a vida  é  feita da amizade com o tempo
Pouco importa que ele  insista na companhia da solidão
Na batalha com a  rosa dos ventos
Encontramos o sentido de uma direção





domingo, 9 de setembro de 2012

Partir e ficar




No final de um sábado que se escondia entre nuvens recebo uma notícia triste.
A hora e o local da despedida de alguém que parte para sempre. De início pensei que não era de quem eu conhecia. Uma tentativa de habitar um equívoco e não viver o sentimento.

Mas era verdade. Daquelas verdades que não podemos contrapor argumentos. A morte não aceita ponderações em relação a  ausência de quem parte. Sensação de que numa rajada de vento a vida se esvai.

Resta    buscar o  sentido do que vivemos  com quem partiu  e permanece em nós.
Não era uma amiga de minha intimidade cotidiana, mas uma amiga da vida que se faz em elos do mundo que desejamos. 
A fazedora de redes da saúde Maria Cristina Carvalho da Silva.

Uma amiga  da vida pública, nas ruas, nos bares, nos serviços,  na universidade, em nós.

Determinada nas práticas de uma  psicologia digna do  que  a vida de brasileiros e brasileiras solicita.
Construtora de uma política de saúde mental que afirma o que queremos para a saúde da nossa cidade: um  Porto  para acolher quem sofre.
Inventora de estratégias educativas na  continuidade de uma política que ultrapasse as iniciativas de uns e outros para ser efetivamente pública.


Chegou o domingo e não tive coragem de ir até a despedida com hora e local marcados.
Nas letras  a busca de sentido para  ficar.
Um pouco de nós partiu.
Ela permanece na rede da vida que teceu e, assim, seguiremos   afirmando que somos muitos para acolher  a  loucura da vida.




sábado, 1 de setembro de 2012

Caminhar



Setembro chegou alegre e solar
Um  convite para   caminhar
Aquela caminhada  esquecida nos  dias de agenda cheia
Dizem que deve ser feita  para manter  a atividade física
Mas caminho para divagar
Meu corpo precisa andar sem destino
O  pensamento anda, revirando ideias
Solto, sem ponto ou vírgula
Viaja
Por isso  gosto de caminhar em companhia do olhar das águas
Movimentam meus passos para o infinito
A vida levada pelo pensamento

Entre as divagações um caminhante  que pesa
Ele caminha com mãos cheias
Na esquerda, aquele  famoso molho de chaves, que de molho não tem nada
É feito da solidez do metal e do valor que guardam 
Na direita, aquela carteira recheada de cartões
“Chaves” que capitalizam a vida 
Mais o celular para ficar ligado
 “Chave” para  não se perder entre os próprios passos
A vida levada pelo que as  mãos carregam

Mas...
O que pesa mais?
Pensamento que não para de andar
Chaves que não podem ficar

A caminhada segue o percurso de casa
Na esquina, um jovem carrega água
Comenta com o amigo
trabalho  pesado
E escuta
é a vida do homem , melhor que ficar parado

Mais alguns passos
O olhar pousa na menina
Caminha para cá e para lá
No meio-fio da calçada
Seu pisar  guarda o vento
Movimentando flores e folhas
Os braços levantam
Brincando com seu andar
“eu caminho para voar”