domingo, 29 de abril de 2012

A menina e a moeda



Entre o café e o pão,  o queijo e a goiabada,   ela e ele falavam sobre o romantismo de nossos dias. 

Homens e mulheres independentes e  decididos com os rumos de suas vidas, mas vacilantes com seus amores. De que são feitos os castelos de príncipes e princesas que dão conta de suas vidas sem a espera do dia encantado? Ou este  dia  anda tão encantado - e distante -  em função  da exigência sem fim  que os  atos solitários  produzem?

E vai ficando para trás o acaso, a  boa dose  de poesia,  estrelas cadentes,  pequenas e inesperadas delicadezas. O   castelo da razão  torna  a  espontaneidade da entrega uma   muralha  do que deve ser.  Entre palavras que explicam,   o alegre  movimento  de uma  criança solicita atenção.


A pequena menina brincava.
Passava entre os móveis e  descobria em cada passo uma invenção do espaço.
A cadeira virava escada.
A mesa uma casa.
O sofá uma piscina para mergulhar entre  almofadas.
E no próximo passo preferiu pescar.
Dali avistava o mar e seus movimentos para fazer o olhar passear.
Mas a menina escolheu o rio  feito das águas  escuras do chão que pisava.   
Para  pescar tinha a extensão do braço e seus pequeninos dedos.
E logo avistou seu peixe.
Na   alegria deste   encontro seu olhar buscou companhia  para contar sua façanha.
Com a mão dando contorno ao seu tesouro sua voz pousou no olhar da princesa:
Olha o que eu achei!
A  voz entusiasmada  era   vagarosa, pois  ainda decifrava o mapa das palavras.
Em sua  mão brilhava  o "peixe", uma moeda.

Seguindo o  entusiasmo da menina,  a princesa  indaga o que ela fará com seu tesouro.
A pequena vacila para responder, pois não estava no percurso das trocas do reinado. 
Ela habitava  os passos dos  sentidos.
No instante de vacilo, o príncipe e  a princesa andaram pelas mil possibilidades  que o reino oferecia para adquirir algo de  valor àquela menina de olhos brilhantes.  
O pensamento consultou  o mago, os mestres de ofício, as artesãs. 
Teriam algo  que correspondesse ao encontro de tal preciosidade?
Depois do suspense, a menina  diz soletrando  o que a moeda iria comprar.
O reino da razão sucumbiu. 
Ficou o sorriso e a sensação de que  o acaso trouxe um castelo de algodão doce para os sobreviventes do reino degustarem.    
Qual era o nome e o gosto da moeda soletrada?  “PI-PO-CA!”.

P.S. 
Finalizo este texto entre trajetos de uma viagem. Ao sentar em meu assento a pessoa ao lado parece incomodada. Depois de revirar-se resolve perguntar se posso mudar de lugar para que ela sentasse ao lado do namorado. Eu jamais seria a muralha a distanciar namorados por infinitos 45 minutos. Gostei de ser a moeda desta PI-PO-CA :)


domingo, 22 de abril de 2012

São Jorge para os dragões de nosso cotidiano.



A semana que passou  foi marcada por uma sensação de absurdos na vida cotidiana.
Aqueles  fatos que você tem certeza que não acontecerão naquele dia, com aquela pessoa, naquele lugar.
E tudo aconteceu.
O  dia com tempo sobrando para respirar e olhar seus filhos crescendo, condensou atividades de  72 horas em 24. 
A pessoa que você tinha plena convicção quanto a permanência  em seu plano de trabalho, resolveu viajar para o outro lado do mundo.  
O lugar que   alimenta sua alegria  tornou-se  fonte da indiferença...   

O que aconteceu? 
Simplesmente não aconteceu o que esperávamos, pois nossas embarcações navegam   em mares  alheios e não dependem somente de nossos atos. 
Até já sabemos da presença desta condição, mas o que seria da vida se não disfarçássemos, fazendo de  conta  que ela segue somente a travessia  de  nossos desejos. 
E, ainda, temos que considerar que o tal  imprevisto pode ser armação de nosso inconsciente. O que queremos e que não sabemos que queremos... Como??
Por favor, eu preciso de uma vaga para a próxima  expedição à Lua!


Felizmente, encontrei uma passagem mais rápida. 
Esta semana temos uma divina companhia  para digladiar com os absurdos da vida:   
23 de abril é dia de celebrar São Jorge!

O jovem soldado defendeu sua fé, mesmo  quando  torturado pelo Império Romano. Por lutar  bravamente pela sua  devoção e por  quem o acompanhava nesta crença tornou-se popular. Um verdadeiro guerreiro da fé  conhecido pela imagem  de  montar um cavalo branco e enfrentar um grande dragão.
Então, que venha o dragão da próxima semana. 
E como diz Caetano...
lua de são jorge
lua da alegria
não se vê o dia
claro como tu
lua de são jorge
serás minha guia
no brasil de norte a sul

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A loucura dos normais: Exposição Bispo do Rosário

Uma quinta-feira de outono com chuva.
Na agenda  uma aula que indaga as relações entre o aprender e a liberdade. 
Para tal tarefa um percurso em que o livro é feito de uma  Exposição de Arte.
Porto Alegre, Praça da Alfândega.
O prédio  de históricas instituições financeiras  virou o espaço Santander Cultural.
Quase cem anos de paredes com  marcas da vida porto-alegrense.
Estilo neoclássico.
Vitrais, grandiosas colunas, escadarias. 
A beleza arquitetônica invade o olhar.


Mas não era  este o motivo  da visita.
Vamos nos aproximando  de objetos, roupas, bordados.
Coleções de nomes, cidades, lugares.
Uma geografia do mundo feita de fios que  bordam delicados e  precisos contornos e, ao mesmo tempo, carregam a imensidão e  o peso do mundo...


O olhar se perde num grande painel de pano com  fios  que demarcam territórios, construções,  bandeiras e  embarcações, entre lugares  que remetem a uma vida militar.
E logo adiante, a madeira e os pedaços de panos criam o objeto veleiro que  navega sem lugar.
As mãos do artista nos tocam com fios que ultrapassam o que vemos.
Ele  produziu a vida que nos toca enquanto estava numa instituição psiquiátrica. 
As linhas dos bordados   eram feitas de fios das roupas que vestia.
O grande painel de tecido era um lençol. 
Entre dias que se acumularam em meses e anos, tudo  foi sendo transformado em matéria da arte de uma vida.
Arthur Bispo do Rosário: A Poesia do Fio.
Santander Cultural - Porto Alegre
Menos o tratamento que, administrado pelos normais, fez do sofrimento do outro um modo de aprisionar. 
A loucura "justificou"  décadas de  internação.
E  temos a sensação de que as colunas  e as paredes do belo museu  oprimem...  


Arthur Bispo do Rosário (SE 1911 - RJ 1989) 
Trabalhou na  Marinha Brasileira e na Companhia de Eletricidade Light. 
Paciente do  Hospital dos Alienados na Praia Vermelha- RJ. 
Diagnosticado como esquizofrênico-paranóico.
Internado na Colônia Juliano Moreira - Rio de Janeiro. 
Entre idas e vindas desde os anos 40, permaneceu nesta Colônia    até a sua morte,em 1989.  
Entre os  muros dos normais para os loucos, ele produziu mais de 800 obras que estão aos  cuidados do Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea - RJ.    


Até dia 29 de abril de 2012, em Porto Alegre, no Santander Cultural: Arthur Bispo do Rosário: a poesia do fio

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Lanche, chocolate e perguntas.


  

Sofia  come  biscoitos cobertos de chocolate no seu lanche na  escola.
Lucas e Carol  comem seu  lanche sem chocolate. 
Os dois não entendem como a colega come seus biscoitos com chocolate, se a professora disse que os pais decidiram  que, no  lanche, não se  pode comer chocolate. 
A professora  conversa com Sofia sobre essa regra. Hoje ela pode comer, mas nos próximos dias não.Sofia  guarda os biscoitos, pois  o  delicioso sabor se perdeu. 
E tudo parecia resolvido.


Porém ...
Lucas e Carol não comeram os biscoitos com chocolate, mas foram contagiados pelo sabor de  perguntar:
  • Por que os pais  tomaram  essa decisão sozinhos com a professora?  
  • As crianças não podem participar?
  • Isso não é matéria de aula?
  • Biscoito coberto com chocolate é chocolate?
Lucas lembrou da aula sobre alimentação na escola.
  • Se a gente estudou, não ia saber escolher?
  • Mas se eu  comer o lanche e  depois, no recreio, comer um chocolate pequeno pode?
A professora disse que no lanche não pode comer chocolate, mas no recreio que  é das crianças ...
  • Então, o  lanche e a  aula não são das crianças?
Sofia, Carol e Lucas decidiram brincar, afinal  no ano que vem estarão  na quinta série e cada um decidirá sobre seu lanche.


Lucas ficou conversando com seus pensamentos: 
Eu sei comer chocolate e fazer perguntas. 
Gente grande sabe decidir  quando posso comer chocolate.
Mas quem sabe responder as perguntas?

domingo, 8 de abril de 2012

Um pescador de estrelas


Ele veio de um lugar distante desta terra banhada por águas claras que brincam com a areia. Ali chegou por caminhos  que  desviaram a  vida de previsíveis  idades de nascer, crescer, fazer escolhas e afirmar raízes. Então, o que parecia o percurso de  uma vida esperada passou a ser uma  desesperada busca de quem havia se tornado.

Mar e Céu - Ilhéus 
Ficou   a divagar se as  conquistas na terra que abandonaria, ainda  diziam de si, ou de um tempo no qual se alojava para acalentar sonhos do passado. E chegaram os dias   para  fazer dos desvios o mapa de quem desejava ser. Mas, então,  já não tinha o equilíbrio  dos  passos que devem  levar o corpo entre  as encruzilhadas do trajeto por fazer. Na tentativa de encontrar o que movia  a pulsação da  vida que desejava,  escolheu a companhia do mar. Imaginava que ao navegar  encontraria no movimento das águas algo de si. Ao retornar do mar ao final de uma jornada,  pousou  seu corpo na areia e ficou a observar o sol a despedir-se do dia. Encontrou  pontos luminosos que iam saltitando à medida que a noite chegava. Adormeceu...

... as estrelas aconteciam depois que um imenso  e escuro pano era colocado sobre a  terra. Os olhos  descansavam da luz sem fim do sol  e o sono chegava. Mas o menino não adormecia com a casa que se aquietava. Esperava o pano ficar bem estendido com a ajuda dos ventos que vinham de um mar distante e alisavam o contorno da terra. Os pequenos furos do tecido, gasto pelo tempo, marcavam as passagens de luz e traziam as estrelas. Uma delas sempre chegava até sua mão e iluminava a escuridão de seu quarto. Ao amanhecer o menino  sabia que a  guia de  seus sonhos estava no  céu ... 

Ele acordou com a chegada dos primeiros raios de sol. Sorriu ao lembrar do sonho que havia trazido a lembrança de uma história de sua infância. Algo estava em sua mão. Guiado pelo tempo da memória revisitou o trajeto de  seu destino. O mar  movimentava o seu barco amigo e,  no combate da  força da água com a terra, anunciava  a pesca de mais um dia de travessia. O céu guardava os sonhos acalentados no mistério do tempo sem idades. Nesta nova  terra,  o destino se fazia entre olhares que a natureza lhe oferecia para  guiar o traçado da vida com  seus atos.

Com  vagar  mirou a palma de sua  mão e encontrou o brilho da linha de sua vida.







sábado, 7 de abril de 2012

Pina: um filme que dança.

O corpo  se acomoda na poltrona do cinema.
O olhar percorre a tela aguardando um filme.


Um véu toca o rosto.
O belo efeito 3D nos torna parte da cena.
Já não sabemos se é um filme, pois estamos num palco com a dança ali acontecendo.

E quando nos entregamos ao palco, temos um filme.
A dança vai acontecendo com a cidade.
As músicas são lindas, as poucas palavras precisas, mas ambas sucumbem no gesto que dança.
O movimento do corpo é  protagonista.

E fui abandonando  o corpo que conhecia.
Respirava?
Parece que sim, mas até o ar parecia dispensável.
Percebi que meu único movimento foi soltar os braços, ali fiquei na mesma posição. 
E quando o filme "acabou", se é que tem fim, meu corpo era outro. 
Vivi a extensão de cada passo, de cada gesto-afeto.
Estava na dança.


Entre movimentos de corpos sem letras, a dança grita, sorri, silencia, entristece, ama, brinca, fere, goza, resiste, e tanto mais que não sabemos dizer. 
A expressão da vida de  nossos corpos


Pina
Pina Bausch (1940-2009), coreógrafa alemã
Filme dirigido por Wim Wenders



segunda-feira, 2 de abril de 2012

Coelho da Páscoa existe?



Na semana da Páscoa, a  conversa da hora na escola de João  girava em torno de uma pergunta:
Quem acredita em Coelhinho da Páscoa?

João chegou em casa preocupado. 
Logo contou  para sua mãe e seu irmão  sobre as dúvidas que pesavam em seu pensamento.
“Tem gente que acredita e tem gente que não acredita no Coelhinho. Hoje foi uma confusão na aula. Aí a gente resolveu levantar a mão para ver quem acreditava e quem não acreditava.”
 A mãe do menino logo quis saber qual era o voto de João.
“Em parte eu acredito e em parte eu não acredito.”

As perguntas saltitavam entre os chocolates que o Coelho poderia trazer. A votação e seus números não resolveram o dilema de João sobre a existência do Coelho da Páscoa. Se não era  ele quem trazia,  como aquelas delícias chegavam em sua  cesta?
“Quem não acredita disse que não é o Coelhinho que   coloca os ovos na cesta porque as portas  e as janelas estão  fechadas. Então,  como ele entra? 
E como ele sabe o que a gente gosta? São os pais que colocam...”
 O irmão de João, atento ao assunto de tamanha importância para os dias de chocolate, resolveu  participar da conversa.
“Eu acho que o Coelho pode ter ajuda dos  super-heróis. Lembra   aquela arma especial do desenho  que cortava o vidro e depois colocava tudo no lugar?”

João ouviu com atenção o irmão, mas não se convenceu.
“Isso é coisa de desenho da TV, não da  vida  do Coelho da Páscoa!”

No  dia seguinte  João acordou  animado e chamou todos da casa para contar a novidade. 
“Descobri como o Coelho  entra na casa da gente! Eu vou imaginando  os chocolates que quero e conto para o mano, a mamãe , o papai, a Vó Tere, o Tio Beto, a Tia Noi, e é tanta gente sabendo  da minha vontade  que  o pensamento anda até chegar aos ouvidos do Coelho. E aí fica fácil,  pois alguém que mora  na casa da gente  fica amigo do Coelho e dá uma ajudinha  quando ele chega."
 "Ah! Mas a  fada do meu sonho disse que é segredo quem ajuda o Coelho, pois só assim nosso pensamento acontece."

A mãe dos meninos ficou a pensar que  até gente grande, se desejar com atos de vontade, pode fazer seu pensamento virar um doce amigo do Coelho e experimentar as boas notícias de renascimento que ele anuncia para a vida.