quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Esquecer?



Esquecer um amor! Quem já não se colocou esta meta?
Hoje é o dia perfeito, pois  29 de fevereiro só retornará daqui quatro anos.
Mas amor não se esquece, está na brisa, invade o olhar, alimenta  nossa  pulsação. 
A brisa, a pulsação, o olhar, não são posses de um e de outro,  mas  concessões momentâneas de um encontro. 
Encontro  de um dia, um mês, ano após ano,  um  instante.

Nesse mundo de tanto distanciamento, de muros e grades entre vidas e  relações,  resta a posse  de um amor. Uma tentativa de   acalmar a busca incessante de uma  morada de si na ilusão de que ela se faz no outro.

Mas de onde vem essa vontade insana de esquecer um amor, um  tempo, uma vida? Exatamente por esquecermos de conjugar o amor na vida  acontecendo. Deixamos  de  experimentar suas nuances na  brisa que toca nosso corpo numa caminhada  à beira mar, no olhar brilhante da criança que solicita nossa  escuta para contar suas descobertas, na vertigem de parar e  ser tocado pelos batimentos de nosso coração.

E sobre um tempo de esquecimento, a receita da infância: “Mãe, eu descobri que dormir é uma máquina do tempo  porque a gente dorme num dia e quando acorda, está em  outro tempo”. O tempo do sono nem sempre é acompanhado pelo movimento  desprendido da criança, mas sempre carrega a  possibilidade de um outro tempo se fazer, entre as horas da  penumbra da noite e da luz invasora do dia.  

Então, a vontade de esquecer um tempo e querer outro  pode estar dizendo do que já está  em nossas mãos: um amor pelo percurso que vivemos. O dia 29 de fevereiro é feito da magia de guardar  um precioso  pedacinho de nosso tempo. E de vez em quando ele  aparece  na forma de um dia para  dizer: esquecer um amor como meta de sua vida é esquecer de viver. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Uma geografia da saudade.



Ano novo,   férias de verão,  feriado  de carnaval. E, logo ali,   os dias de  março à nossa espera  para navegar rumo  à nova estação. A sensação de rotina vai chegando depois da virada deste tal tempo que denominamos  Ano Novo. 


365 menos 31 dias de janeiro; 334 menos 22 dias de fevereiro;   parece que este tal Ano anda mais rápido que nossos passos.  Se,  por um lado, temos a sensação que é preciso  acelerar nosso andar, por outro,   o trajeto nos convida  a experimentar os sentidos provocados no  percurso. Despertados da aceleração pela marca de um  novo ano,   voltamos  à  rotina  com mais vagar para perceber  o cotidiano, a agenda,  as relações,  o retorno aos lugares que escolhemos viver.

Porto Alegre - RS
Mas  o  que nos torna de um lugar? O que nos faz permanecer e  ter o sentimento de ser  daqui ou de lá? As pegadas dos  passos de cada dia  fazem o mapa de nosso  exercício de ficar e partir. Para alguns, uma permanência feita da terra herdada entre gerações, para outros, uma terra desbravada pela despedida do lugar que marcou o ponto de partida. Um lugar para morar, para  conviver com uma família e distanciar-se dela, para ter amigos e ficar só.  


A diversidade e o anonimato de uma “cidade grande”;  a tranquilidade e  a intimidade de uma "cidade do interior".   De um modo, ou de outro, permanece uma regra:  estar próximo da experiência que acolhe o labirinto das terras de nosso interior. Entre a escolha e o  acaso, os lugares vão sendo praticados. Afinal, seria possível nos percebermos sem a geografia que faz o contorno ao movimento de nosso corpo?

Nova Prata - RS
Os ventos que trazem essas palavras percorrem a estrada entre a  cidade onde moro e a cidade onde nasci. Entre placas que vão anunciando os quilômetros da distância que vou vencendo,  faço contas, e  chego aos  30 anos de minha atual morada. Os pensamentos e as curvas da serra encontram     a placa verde que indica  "Vila Flores". Minha boca saliva com o gosto de  biscoitos feitos com um lugar da   infância. Ainda não era minha cidade natal, mas tinha o cheiro dela. 


Ainda estaria lá a bela casa do passado feito das visitas maternas para troca de receitas, seguidas de  experimentos culinários que resultavam em biscoitos de todos os tamanhos e gostos? Saio da estrada de meu previsto destino.  Ao avistar a   casa penso:  estará fechada? Mas não estava!

Lá encontrei uma voz conhecida que em minha memória ecoava numa conversa  materna. Não bastasse a casa  e essa acolhedora presença, as prateleiras estavam repletas de biscoitos a escolher. 


Villa do Pão
Vila Flores - RS 
Em minhas mãos o biscoito preferido, a senha para chegar a um lugar desejado,  como se a máquina do tempo fosse o efeito de sua degustação. Descubro, ainda, que o prédio vem sendo preservado pelas novas  gerações. Os  segredos  desta  geografia, arquitetada entre sentidos, permanecerá ali.  



A   manutenção de  prédios que  marcam a vida pública de uma cidade ultrapassa os efeitos registrados num projeto governamental.  Os prédios carregam lembranças de geração para geração, de movimentações políticas, de afetos vividos por cada um que ali esteve. A possibilidade de  retornar aos lugares que fizeram parte de nossa história, nos faz  revisitar  a própria vida e como ela segue sendo feita deste espaço povoado de tantos  que ali estiveram e que desconhecemos. Sentimos um pouco do outro e temos a certeza que não estamos sós na conquista  de uma terra para si, pois ela se faz de nós. 


Uma geografia de estradas, cidades e prédios, que faz a história de lugares  e,  entre seus  traçados, mistura a terra de nossas singulares histórias. Onde nascemos e  brincamos,  aprendemos o alfabeto e deliciamos biscoitos. 
Passo a passo vamos  desenrolando a vida, pois   desfrutamos  do divino presente de ultrapassar um ano após o outro. Talvez aí esteja o verdadeiro sentido de marcar cada ano com um número, seja no nosso aniversário, seja no aniversário do Ano Novo: percebermos a própria  existência marcando  um ponto na história de uma terra que gira  mundo.

A chegada da quarta-feira  de cinzas  misturou lembranças entre labaredas da fogueira da saudade. O aconchego   do gosto dos desejados biscoitos   faz  o tempo permanecer entre dias que passam, mas é preciso estar atento  aos lugares que acolhem nossas vontades. Uma morada feita do lugar onde nascemos, de onde chegamos estrangeiros e escolhemos viver,  de pegadas nômades   e, ainda,  de terras que nos  aguardam chegar.





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O gosto de um olhar


No trajeto do olhar em direção ao outro, o corpo encontra um lugar de parada. 
Feito de um tempo que chega ao acaso.  
Um movimento de passagem e, talvez, da própria imaginação. 
Entre as armadilhas da imaginação, é preciso  exercitar o lugar de   detetive para percorrer a intensidade do que criamos  e do que o outro está a provocar.
Momentos fugazes  que dizem do que é feita a vida: pedaços apaixonantes de um tempo que escapa. Logo ali, podem vir a ser um acontecimento. 
Pouco sabemos de como nos tornamos atores da cena contida no cruzamento de olhares.


De repente, acontece! 
Entre passagens somos invadidos pela vontade de manter o olhar como estação de um percurso. Desconhecemos o que nos força para este movimento, pois ultrapassa a razão que pergunta: o que estás fazendo?  

Simplesmente  experimentamos. 
Vivemos a intensidade do brilho de um olhar,  luz que cega qualquer outra direção. 
A sensação invasora que  toca a pele e   percorre o corpo é feita da presença do outro. Pulsação compartilhada ou apenas mais um capricho da  imaginação? 
...  um  pouco de cada ...

Entre os devaneios da lembrança pensamos  em como a vida poderia ser diferente  se soubéssemos o que provocamos  no outro. Uma palavra generosa,  uma lágrima,  um sorriso, um toque amoroso, um equívoco esclarecido, uma mão amiga,  uma advertência,  um abraço.

Nos movimentos de lembrar e imaginar  sentimos o gosto de uma vida com o tempero  do que  faz durar o  presente,   menos voltada para  um futuro  insípido 
que pouco movimenta o céu da boca.

A imaginação,  
ora nos faz vaguear na ilusão, 
ora sinaliza  novas possibilidades para nossas vidas.


 brilho de um olhar é feito da imagem que saboreia um encontro, 
vida acontecendo aqui, 
quem sabe acolá. 



domingo, 12 de fevereiro de 2012

A lua encontrando o sol: seria dia dos namorados?

Em minha caminhada encontro a lua em pleno dia flertando com o sol. O que estaria anunciando. Talvez  seduções da natureza em dias que se aproximam dos divertidos encontros de carnaval. 

Por acaso, na internet, entre buscas de outra natureza  encontro um bom motivo para esta disposição da  lua com o sol em pleno 12 de fevereiro. Parece que  o  dia dos namorad@s  de outras terras chegou por aqui. 



A contação de histórias diz que  essa data  está ligada a São Valentin, comemorado em 14  de fevereiro. Ele  celebrava  o casamento, mesmo com a proibição de um  imperador. No período das guerras   havia a crença que  os combatentes solteiros eram melhores. Valentin lutou pela causa, foi afirmado pelos apaixonados e, assim, pode ter surgido a celebração do dia dos  namorad@s. Por aqui, a data foi associada a Santo Antonio, nosso santo casamenteiro.  

Portanto, para quem vacilou, em 2011, no dia  do namoro brasileiro,  não precisa esperar até  junho!! Faça de conta que está entre os países do norte e surpreenda  no próximo dia  14, data de  origem desta celebração amorosa. Não sei se as histórias conferem,  mas  é  mais uma chance para os já apaixonados e os que desejam conquistar esta condição. Afinal, como bem  canta Marisa Monte  "amar alguém só pode fazer bem".

E para seguir na inspiração da  lua que vem nos seduzir em pleno dia,  abandone os presentes que  consomem  sua conta bancária. Prefira  o "consumo"  da palavra,  do toque,  do cheiro, do som, do gosto...  Não hesite em  escrever um cartão apaixonado; elaborar o prato preferido; enviar uma delicada música ou uma poesia da extensa  lista de compositores e poetas  apaixonados.
Um tempo para estar com o outro na leveza da lembrança de uma história que nos afaga.  O cultivo da   simplicidade de atos  que alimentam a vida e  andam ausentes da amorosidade de  nossos dias. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Mais um acolhedor Café em Porto Alegre


Na década de 90, quando conheci Buenos Aires, minha  bagagem carregou a vontade de marcar  percursos, nas ruas de  Porto Alegre, com cafeterias. A cidade portenha, entre tantas lembranças apaixonantes, seduzia minhas caminhadas com seus cafés em cada esquina.


O tempo semeou a ideia por aqui e hoje temos um colorido mapa de cafés porto alegrenses, tanto  em sua  diversidade, como na originalidade destes peculiares  espaços. Acolhedores lugares para ler o jornal ou um livro, garimpar a internet, escrever na conhecida caderneta ou no novo  notebook, conversar ... 
Ah!! E tomar um café!


Em novembro recebi a saborosa  notícia de que mais um endereço seria incluído na minha lista de Cafés preferidos.  Não sabia o nome, mas o lugar despertou minha curiosidade e gosto. Uma  floricultura na zona sul de Porto Alegre, no  bairro Tristeza, que de triste só tem o nome. Sim,  depois de morar entre os bairros  Tristeza e Ipanema, encontrei uma boa dose de alegria de nosso porto. Tenho convicção que meu limite para residir  em nossa capital é  o bairro Meninos Deus, pois preciso  ficar  com um pé nas terras da  zona sul e um olhar nas águas do Guaíba.



Então, aproveite o percurso que beira o parque Marinha e o Guaíba e encontre  o rumo para a zona sul - bairro Tristeza. Na  avenida central  Wenceslau Escobar,  passando o Centro Comercial Strip Center,  dobre à esquerda na Pereira Neto. Mais duas quadras, dobre à direita e, novamente, à direita. Estarás na Mario Totta, 963. Qualquer  ônibus ou lotação que passe na Wenceslau e caminhar duas quadras.  


Entre caminhos feitos de  flores terás um    alento para os olhos vagarem entre cores e  estilos, abandonando o cansaço de nosso dia a dia.  Só esta experiência valeria o passeio. Mas terás uma grata surpresa: Café & Prosa


Tudo indica que a casa deste inusitado Café  tem as marcas da história da peculiar Floricultura.  Mas essa contação poderá  fazer parte de uma prosa no deleite com um café. 


Aproveite a calmaria do trânsito, nos dias de fevereiro, e aprecie o toque acolhedor de mais um endereço de  parada no mapa de cafeterias de nossa cidade.











terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Estações de uma juventude em nós ...


Texto publicado no Jornal Entrelinhas  
 Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul 
 Dezembro de  2011. 



Numa estação  de trem  sou invadida pela vida  acelerada de caminhantes que chegam em Porto Alegre. Ali ainda   conseguimos olhar o rio-lago que em sua  tranqüilidade  despreza a aceleração urbana que transita em seu em torno. Fico a pensar no que dizer,  alguns minutos depois,  quando conversarei a respeito das políticas juvenis com uma equipe de trabalhadores  públicos de uma cidade próxima. O trem chega. Ao entrar,  o movimento de meus olhos pousaram nos passageiros. Muitos jovens. Lendo jornal.  Ouvindo música. Dormindo.  Telefonando. Com o olhar no ar, na vida, nos meus olhos.

Criança? Adolescente? Jovem? Adulto? São designações assumidas para nomear ações  esperadas no desenrolar da vida. Lugares  para serem conjugados entre  idades e modos de viver. Se por um  lado,  identificamos de forma mais precisa as mudanças que vão diferenciando a infância e a adolescência, por outro as fronteiras da juventude em relação ao adulto parecem mais difusas. Para orientar as políticas nesta área a condição juvenil é associada a algumas características, entre as quais destaco e indago três: 1) Uma identidade própria – “Já não tinha?”; 2) A busca da condição adulta – “O que é estar adulto nos dias de hoje?”; 3) A emancipação e a autonomia – “Humm.. quem tem?”.

Essas orientações criam uma estação previsível para situar onde estamos neste percurso que  acontece sem parar. Mas é preciso estar atento, pois  quando  revisitamos os saberes  de quem já esteve numa etapa percebemos que nada está acabado no movimento da vida. Na experiência que faz a vida não temos tanta clareza de que ser jovem implica em dar conta de tarefas já realizadas pelos adultos. Considerado pela lógica consumista como aquele que deve  adquirir tudo que o tornará mais jovem, o adulto  é atropelado pelas tarefas que o afastam  do movimento de envelhecer. Enquanto isso,   sua potencia está,  exatamente, em perceber o movimento que o fez percorrer as  estações ao edificar a morada dessa experiência.  As estações pós 30 vão marcando o  meio do caminho. Aqui, o meio não é um ponto equidistante de extremos, mas  um estado que possibilita afirmar a produção de uma  vida. Entretanto,  parece que sempre se está tão distante do esperado,  do que deveria ser,  e voltamos ao que esperamos da juventude.

As vezes,  temos a impressão de que para consumir o modo de vida em curso   é preciso que os adultos queiram ser jovens, e que os jovens não queiram ser adultos. Estamos sempre atrasados e  mais ligados a quinquilharias do consumir-se que vão se tornando condições de sobrevivência. A questão que nos interroga é o quanto percebemos o movimento de como estamos nos tornando quem somos. Quem desejamos ser? O que desejam que nós sejamos?

Entre imagens televisivas na cena de publicidade,  o protagonista,  por não ter o carro da hora,  opta por  queimá-lo com o combustível que deveria movimentá-lo. Na próxima cena,  jovens de uma metrópole européia queimam prédios. Que edificação movimentam? São eventos de natureza diferente. O primeiro incêndio é imagem/imaginação, o segundo é imagem/realidade. Mas podemos  indagar: conceber um carro, planejar sua venda, pesquisar seu consumidor,  elaborar um comercial com as vontades do contemporâneo, produzem nossa realidade? As cenas dizem de  modos de viver em nossa sociedade. É preciso assumir as escolhas do que fazemos com o uso de nossa  imaginação na realidade que produzimos e nos consumimos. 

É rápida a transformação de atos juvenis em delinqüência e psicopatologia, cujas origens se encerram  na interioridade descontrolada do indivíduo e na “pertinência” de uma etapa da vida. O  posicionamento que transforma em delinqüentes aqueles que enunciam a condição que ocupam na sociedade é o caminho rápido das medidas de segurança. Pois se logo ali percebermos que esta condição não é somente destes outros, é também de quem estamos nos tornando, o que fazer? É preciso vagar para percebermos o que mais estes atos  dizem.

A enunciação juvenil tem sido marcada por reações desenfreadas  na ânsia de sinalizar uma vida em chamas que nos chama. A expressão dos impasses que experimentamos,  no contato com as disparidades que o mundo  produz,  marca as pistas de como estamos (d)enunciando as incompreensões do próprio sentido de nossa vida contemporânea. No Chile,  um  movimento juvenil afirmou uma política nas ruas pela educação. Na Espanha o movimento dos indignados iniciou e foi percorrendo  o mundo. Labaredas inspiradoras que aquecem novas direções do agir.

Podemos indicar alguns números que diversificam as imagens que configuram essa sinalização na vida que habita a juventude brasileira. Em 2009, 50,9% dos jovens entre   15 a 17 anos estavam cursando  o nível escolar esperado (o ensino médio), sendo que entre os  20% mais pobres da população, este índice é de 32%, e nos 20% mais ricos, essa situação refere-se a 77,9%. Entre 18 e 24 anos,  cerca de 38% cursavam o nível escolar esperado (ensino médio completo) e  mais de 14 milhões de jovens  estavam no redemoinho dos níveis escolares,  trabalhando com pouca qualificação e em condições precárias. Dados da imagem/realidade do IBGE. No que concerne  ao  Mapa da Violência de 2011, abordando a situação de jovens no Brasil, não temos edificações e carros queimados. A cena enunciada adverte que a partir dos 13 anos, continuamos com um número de vítimas de homicídio crescente que atinge o  pico de 2.304 na idade de 20 anos. Os elevados níveis de vitimização masculina e  negra permanecem. Também são preocupantes os números de jovens que morrem em acidentes de trânsito. 

As estações indicam que a política que aquece nossos percursos envolve, necessariamente,  como afetamos e somos afetados pelo que experimentamos nos modos de viver compartilhados para alimentar nossa capacidade de agir. 

Na saída do trem meus olhos traziam a imagem de uma bela rosa vermelha tatuada no braço de um jovem. Nada sei dos motivos desta rosa. Mas sei que as formas de  expressão enunciam que não estamos sós e que as imagens inspiram as escolhas de nossas próximas ações e estações.






sábado, 4 de fevereiro de 2012

“Alegria Passa-e-Fica”: Paraí!


Uma sexta feira de 2011 com destino à minha cidade natal, no interior do Rio Grande do Sul. Na saída de casa o zelador  aguarda  com um pequeno pacote. Sorrio ao perceber que estava em minhas mãos o prometido presente de aniversário: de  Salvador para Porto Alegre.  Um singular presente, afinal qual autor  entregaria seu livro antes do lançamento? Conquista de quem acompanhou a criação da obra e aniversaria, exatamente,  quando papel e tinta fazem desta criação a matéria para chegar em nossas mãos. Poderia  abrir o pacote ali,  saciando a curiosidade da espera de tantos dias. Mas o destino anunciou que eu poderia fazer durar o  tempo de presentear para torná-lo ainda mais saboroso. Naquele exato momento eu  viajava para Nova Prata, distante   32 quilômetros de um dos personagens de meu presente: o município de Paraí.  A vontade de abrir o pacote  era  grande, mas o destino de nossos percursos é soberano quando o lema é viver o trajeto da paixão que produz a experiência. Decido  não  deixar passar a possibilidade de abrir o pacote, habitando o lugar que compõe o enredo deste livro-presente. Passado o trajeto  Porto Alegre-Nova Prata, uma  parada.

Enfim, sigo pela estrada  que faz revisitar  passagens da infância  e,  entre  lembranças, chego  à cidade esperada. Saindo da estrada principal encontro  um percurso margeado de morros, muito verde,  pequenas moradias, plantações,   e chego à área urbana  da cidade. Uma rua principal nos leva à  praça, lugar que podemos designar como  referência da cultura das cidades de nosso interior.  Num dos bancos  amarelos, sob a sombra convidativa das árvores e  entre crianças que se divertem nos balanços, encontro o lugar exato para abrir meu presente. Depois do embrulho, as mãos tocam o livro e o olhar é levado pelas linhas do mapa de terras brasileiras que constituem sua capa. Esta é mais uma arte de Nildão - www.nildão.com.br   

O pequeno livro, de 10 por 7 cm, vai se agigantando com as  indicações de trajetos para viajar neste nosso imenso país.  A placa verde inscrita na capa indica nossa primeira direção nos próximos movimentos com o título: “Alegria Passa-e-Fica”. A leveza de Alegria(RS) no paradoxal movimento que Passa-e-Fica(RN),  fazendo a vida acontecer do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Mesmo na condição de já conhecer  o conteúdo da obra, minha sensação mantém a surpresa com a originalidade desta criação: uma poética feita exclusivamente com os nomes de 316 cidades brasileiras. Sem acrescentar preposições, artigos, verbos, etc.   A poética   da viagem, que segue no  movimento de folhear o livro,  é feita do cuidadoso garimpo na língua portuguesa que se expressa  no peculiar batizado dos nomes de nossas  cidades.  


Encontramos cinco territórios que organizam um trajeto para o leitor sorrir, desconcertar-se e até desacreditar que é possível tal proeza na conjugação de nossas cidades. No território de Pongaí(SP) a beleza do encontro de  Confins(MG) com Solidão(PE); em Miraí(MG), o sabor de Pimenta(MG), Canela(RS), Alecrim (RS) com Panelas(PE); em Quaraí(RS), o humor de Branquinha (AL), Banzaê (BA) com Ressaquinha (MG); em Piraí(RJ), a poesia de Paranapanema(SP) e Paranapoema(PR). Estas são apenas algumas pistas das delicadezas   oferecidas ao leitor as quais,  como bem denomina o autor, fazem parte da mina de mais de cinco mil cidades brasileiras. Sensibilidade, humor, ironia,  são  ingredientes  desta arte de conjugar cidades  para fazer poesia dos territórios que constituem as moradas de brasileiras e brasileiros. 

E cá estou em Paraí(RS), o quinto território do livro. Caminho   nesta cidade, último destino na obra do autor,  primeiro destino  que  a vida ofereceu  para que meu olhar   habitasse este livro. Encontro na  estação  final de “Alegria Passa-e-Fica”  o coração de um interior que está em cada um de nós. Pista já anunciada ao abrirmos o livro, quando  encontramos  na primeira  página um coração que se torna território das quatro cidades que marcam a pulsação da história de vida do autor. 


Cheguei por uma rua central que atravessa a cidade e fui me distraindo  dela quando avistei  a praça e, logo ali,  a igreja, a rodoviária, as indicações dos espaços públicos que fazem de um lugar uma cidade. O coração da cidade. Se seguirmos para as laterais vamos capilarizando sentidos. Duas ou três quadras de  rua com paralelepípedos e chegamos na estrada de terra misturada com a base de morros verdejantes. Portanto, temos  muitas possibilidades de fazer pulsar outros caminhos. Se seguirmos pela via central, que nos fez chegar,   encontraremos a indicação de  uma nova cidade para ficar... ou para passar...


Ao ficar no coração de Paraí encontro as pulsações que  fizeram o autor  ali finalizar sua obra pela história do que o nome anuncia.  Um visitante na cidade afirmou que Paraí assim era  chamada  porque ali os tropeiros encontravam um bom lugar de repouso e parada nas suas andanças. Dizia  um pouco de seu próprio lugar como forasteiro que de passagem escolhia a praça para brincar com seu filho. Mais adiante encontro uma senhora, moradora da cidade. Ela narra que um grupo de  imigrantes italianos, após a longa travessia pelo  oceano  e o desbravamento da serra gaúcha, chegou  nesta bela terra, onde  resolveu parar e fazer sua morada! Visitante  e moradora continham a mesma convicção: Paraí!

Terras marcadas pela política do mundo que nos leva a cartografar distantes lugares  para fazer o próprio mapa e ficar.  Terras marcadas pelas passagens em  estações que acolhem e possibilitam seguir.  De Pongaí a Paraí passamos pelo encanto de pedacinhos de  nosso país e vamos ficando   apaixonados por quem somos.  Não encontrei no pequeno livro minha cidade natal, nem a querida Porto Alegre que adotei como minha cidade faz tempo, mas encontrei a beleza de fazer de nossa terra e de nossa língua uma morada com a arte de viver para todos. Entretanto, o autor ficou atento a essa provável vontade do leitor  de querer encontrar nas personagens do livro aquelas que fazem parte da própria história. Então, depois de Paraí,  temos a  imagem de um  cérebro como  território das   cidades criadas pela ficção para acolher qualquer possibilidade. 


Ao inaugurar  este belo tesouro de  poetizar cidades o autor nos leva a viajar com a imaginação para encontrarmos em nosso interior  a cidade que desejamos. 
Confesso que meu coração já escolheu. Ele foi  invadido pela vontade de andar por esse Brasil sem fim  e sentar no banco da praça de cada personagem de “Alegria Passa-e-Fica”.




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Férias em Ponta do Mutá




www.barragrande.net/marau/praias.php?theme=barragrande
Era para silenciar. Viver o sol e o mar para retornar com as lembranças na memória de si. Impossível... Como guardar as sensações no corpo e não compartilhar em traços de palavras, para que outros marquem no seu mapa, este tesouro das terras de nosso Brasil sem fim. Uma amiga gaúcha, que pousou sua morada na Bahia, já havia comentado com enlevo sobre este lugar. Depois, quando comentei sobre férias, um amigo mineiro - que também fez da Bahia sua casa - indicou de forma precisa o mapa da mina: Ponta do Mutá. Entre outros planos, acabei por optar por dias de encontro com o mar, o sol, as leituras, a caderneta para escrever sem compromisso, a areia para desmarcar meus passos em longas caminhadas. Minha convicção: viver férias acompanhadas pelo lugar que acolheria o pouso de minhas vontades. E assim aconteceu... 


Começamos com um peculiar trajeto que nos leva a experimentar outros tempos de locomoção. Chegando a Ilhéus, mais cerca de 150 Km. Se for de carro, o trecho final é uma estrada de terra que quem chega considera um equívoco do motorista. Mas ele afirma: “é por aqui mesmo”. Outra opção é ir até Camamu (esse lugar merece outro texto) de ônibus e andar numa embarcação que sai de hora em hora para Barra Grande. Você irá deliciar-se com o balanço do mar que abafa o motor do barco entre mangues, ilhas e o belo percurso da Baía de Camamu. Os mais afoitos podem fazer este trajeto com lanchas. Tempo de conversar, perguntar e construir o mapa dos próximos dias.


Cheguei! Encontro uma pousada “básica” (www.soldomuta.com.br/) e com tudo que é necessário: combinações claras e atendidas, toalhas cheirosas, boa cama para descansar, uma rede na sacada, vista para o mar entre coqueiros, um café saboroso (com tapioca feita na hora). De manhã o burburinho da arrumação do restaurante, uma construção simples com mesas e bancos de madeira. Ali estão presentes duas celebridades: a brisa do mar e o som das ondas. Entre o café da manhã, as idas e vindas de banhos de mar e o deleite ao sol, vamos acompanhando a chegada de ingredientes anunciando o cardápio que, logo mais, poderemos saborear. Os pescados vão chegando pelas mãos de trabalhadores da região, ali são pesados e podemos avistar os primeiros preparativos. Humm... Sim, tudo isso fará parte do delicioso cardápio elaborado por Carlos Motta. 


O jovem Chef compartilha a adoração pelo que faz com uma oferta saborosa de combinações com ingredientes brasileiros. Tem sua companheira por perto com um atento olhar que mantém o tom de leveza do ambiente, acompanhando o dia a dia  da pousada e nos orientando com dicas locais. E seu pai que incentiva as criações do filho, compartilha a administração do local e nos atualiza  sobre os projetos e preocupações com a sustentabilidade da região. Ambiente familiar? Sim. Mas vai além disso, pois o cotidiano de um negócio familiar se faz também da vida de moradores da região. Entre as mesas, no bar, na cozinha, olhares atentos e palavras que acolhem nossas vontades. A maioria chega ali para trabalhar e vai formando laços de pequenas comunidades, entre vidas compartilhadas neste dia a dia mais as histórias de quem por ali pousa para degustar a beleza do lugar.


Falemos de Mutá e o sol e a ponta. Embora pesquisadora de uma universidade, minha “investigação” foi feita com uma regra de rigor questionável, a conversa solta. Como estava em férias, prevaleceu o sentido vivido neste peculiar diálogo. Mutá? Um amigo paulista que já transita por ali faz tempo – e tudo indica que também fará desta terra sua morada - me disse que ali os nativos observavam a entrada de estranhos na Baia de Camamu, um certo ponto de observação e proteção entre batalhas da colonização. Parece que a natureza cuidou de ir formando a ponta de areia para seus moradores cuidarem de si e de sua terra naqueles tempos de invasões.


Como estamos numa península Ponta do Mutá nos presenteia com o adormecer do sol. Neste olhar povoado de luminosidade vamos nos percebendo especiais na intensa experiência com a natureza. Ao habitar este lugar percebi que somos observados e cuidados pela natureza com toda precisão de seus movimentos – dia, noite, sol, lua, maré, … . Bom seria se assim cuidássemos de nossa terra brasileira. Tudo indica que a pequena comunidade Sol do Mutá se esforça neste sentido e nos aguarda para afirmarmos uma rede de relações observadoras da vida que desejamos.


Creio que não é preciso dizer sobre o motivo de tantas pessoas fazerem da Bahia sua morada e, em especial, de Barra Grande. Alguém perguntará se não encontrei problemas... Sim, eu tenho muitas reflexões políticas, ecológicas, culturais, econômicas, mas estas ficarão para o texto da pesquisadora em psicologia social. Aqui, fica a intensidade de férias vividas como morada de si na natureza. Voltei trazendo na bagagem um pedaço dessa terra apaixonada que nos convoca a sentir de forma tão definitiva nosso lugar brasileiro.


Letras, neblina e Gizz


        Em 29 de janeiro de 2009, quando remoía as ideias sobre o que poderia ou não escrever em minha tese, encontrei a  neblina  a    beira mar. O som do mar e o desenho do movimento de suas  ondas na areia, como bússolas. Para trás, neblina percorrida e ondas repetidas dissolvendo as pegadas; para frente, o movimento do passo. Quando o sol surgiu se fez a  exatidão dos contornos em volta,  aparentemente a incerteza do percurso na neblina foi dissipada. As   letras invadiam o pensamento e buscavam meus  dedos sem dar importância ao lugar ou sentido do que diziam. Uma tese? O trabalho com políticas juvenis? A vida com  marcas de passos perdidos? Restava escrever com Gizz e  fazer de si a morada de uma   vida que transbordava em  palavras. Restava escrever com giz e fazer das palavras um modo de entregar-se a vida  transmutada em pó  no tempo. A tese passou e o  ato de escrever seguiu  com uma força avassaladora, tomando corpo com sua vida própria.  A experimentação possibilitou novos usos de si e dos percursos nebulosos.  O  encanto pelo tatear vagaroso com as letras em grafias de pó vai marcando traços que o vento faz pousar em ensaios de palavras, parágrafos, textos. Foi preciso experimentar a neblina e turvar o olhar para habitar  os misteriosos lugares da criação. Passagens daquilo que podemos e não sabemos. 
Ventos de Giz