domingo, 25 de março de 2012

Um porto com Elis e Maria Rita


Caía a tarde feito um viaduto... em Porto Alegre, no dia 24 de março de 2012.

Porto Alegre, Anfiteatro Pôr do Sol
E a cidade em torno do Anfiteatro Pôr do Sol foi sendo povoada por passos de todas as idades e gostos. Ao compor esta caminhada o corpo abandonava, aos poucos, a conhecida sensação  de receio que nos toma, hoje em dia,  ao andarmos  nas ruas.  O presente já  estava ali, sendo desembrulhado,   na bela experiência  do corpo de  soltar seus passos e  seu olhar  para compor  algo em comum na cidade.  O caminhar fez de  moradores desconhecidos acompanhantes guiados pelo Guaíba, em dias de celebrar  o aniversário de um porto de todos.

Nem o lago  nos aguardava sozinho, pois o sol o  acompanhava para nos receber com o pouso de seu  brilho nas  águas. Então, ela chegou.  Vestida de branco com sua voz doce e sensual, hesita para falar no meio da  emoção de todos com aquele momento. O calor do sol ainda estava presente, mas o arrepio do acontecimento percorria o corpo sem solicitar agasalho. Maria Rita estava ali para conosco homenagear Elis. Mãe e filha, filhos e filhas de uma  terra que   experimenta   a arte  de sermos  artesãos da cidade que desejamos.

E a voz invadiu o tempo.  as águas de março fechando o verão, é promessa de vida no teu coração.  Porto Alegre, entre mãos que dançavam nos ares de outono trazidos pela noite,  foi embalada e revirada com milhares de vozes que ousaram  virar uma Elis. A Elis de todos.

O entardecer foi  acompanhado pela delicadeza de bolinhas de sabão que trouxeram a infância para acolher o carinho  maternal do momento. Então, as estrelas foram convidadas a chegar com balões  azuis lançados  ao céu. O tom  azul da noite  dizia dos   mistérios que a instigante trajetória de Elis nos lança.

A noite chegou e as músicas com o tom político e denso, num arranjo  musical  forte, nos fez sentir o limite da morte e da vida de quem não cala na   defesa do direito à fala de um país. Para seguir, o encontro de Maria Rita  com a  mãe-mulher que se faz de uma  ausência  presente  na voz da mãe-artista.  E fomos invadidos  pelas   lembranças de quem partiu e que segue na memória de nossas  pulsações.  

Quando tudo já transbordava na façanha de Maria Rita ao produzir a cativante combinação de  voz, letras e   arranjos,   com nossa  presença entre o  céu, sol, sul, terra e cor ,  ela evoca Milton Nascimento. Pensei: se  cantar Amigo é coisa para se guardar terei que fazer de uma bolha de sabão a travessia para outro porto  para dar conta desta intensidade. Ela não cantou esta música, um ato de delicadeza com tamanha emoção. Cantamos na  intimidade de nossas lembranças. A amizade estava ali nos laços de Elis e Milton, nos atos de Maria Rita e na experiência compartilhada por   cada um de nós. É preciso ter graça, é preciso  ter sonho, quem traz na pele essa marca, possui a estranha mania  de ter fé na vida ...

Ao homenagear a mãe,  a filha  fala de si e de nossa história, fazendo da  herança  materna  um marco  inesquecível da amizade com as terras deste país. A esperança equilibrista, sabe que o show, de  todo artista, tem que continuar... E Maria Rita continuou, fazendo de  sua história e autoria uma bússola para  afirmar a memória da arte brasileira, enunciando as palavras e atitudes maternas que nos fascinam e  inspiram para  prosseguir nesta travessia.  


Obrigada Maria Rita,  por nos presentear com esta singular brincadeira de roda em nosso aniversário,  um presente que cantou  a arte brasileira   no porto de  nossos corações.

Como se fora brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!


segunda-feira, 19 de março de 2012

ABC de uma amizade feminina




Os dias passavam e este texto a titubear. Rabisquei idéias, ainda em fevereiro, para celebrar o Dia da Mulher, mas o tempo... Ah o amigo tempo, quando invadido pelo invento humano - o Sr.  Relógio - nos faz ritmar a vida na  agenda a ser vencida. Um,   mais  outro, e os compromissos foram fazendo de março um tic tac. Escapei do relógio  e fui invadida pelos ventos e mares que fizeram das letras esconderijos.
Oito de março passou e nada ficou “pronto” para compartilhar com as mulheres  que habitam minha vida. Mesmo convicta que a luta  feminina permanece a cada dia, gosto de marcar o dia 8! Sim, fatos históricos nos fazem parar e perceber  que muitas  conquistas de hoje  iniciaram bem antes de nós. Então, vamos ao que me leva a fazer de  março um tempo para escrever  com  mulheres.

Ao fazer 40 anos pensei numa festa em que nomearia  40  mulheres que conviveram comigo  e fizeram diferença no meu modo de viver... Achei que não teria este número. Na tentativa de listar  a festa ali aconteceu, pois o número ultrapassou a idade!
Falar de cada uma?  Não daria conta de  nomear  tantas nuances   deste  universo feminino que acolhe as linhas de minha vida. Então, as letras surgiram  entre mulheres que fazem da amizade um alimento de meu viver.

Amorosa para acolher o sofrimento sem marcar agenda.
Bela para despertar toques de seu singular estilo. 
Cautelosa para descobrir o tempo exato de tagarelar,  compartilhar, silenciar...
Didática para fazer o mapa de perdas e ganhos diante de opções  que aguardam  respostas.
Efêmera quando o assunto trata das  desavenças que apimentam a amizade.
Festiva para  celebrar conquistas de qualquer grandeza, porque a vida precisa de atos de todos os tamanhos.
Generosa na disposição  para agir quando a atitude está ausente.
Hábil para dizer o que não se  quer ouvir,  mas se faz necessário escutar.
Irada para colocar os “pontos nos is” quando você quer parar a vida esperando quem já foi.
Jovial para compartilhar  deliciosas loucuras em qualquer idade.
KKKKK, pois bom humor nos liberta das rugas da alma.  
Ligada no  mundo e nos posicionamentos  que o tornam mais digno.
Mestra em encontrar encruzilhadas quando os caminhos parecem ausentes.
Navegante para desbravar águas que só Iemanjá  arriscaria. 
Observadora para alertar que você  está sendo observada.
Prudente  para  não se  precipitar em  decisões fundadas na TPM! Ou, exatamente, para orientar que esta é a hora, pois  a TPM pode  justificar.
Querida para um abraço infinito quando a vida nos deixa sem lugar para ficar.
Revolucionária todos os dias, pois temos muito a fazer juntas na busca de um mundo para tod@s.
Sarcástica para dizer o necessário a quem ludibriou sua lealdade.
Temperamental, afinal não estamos aqui para sermos entendidas mas simplesmente amadas.
Unissex para sinalizar que a justificativa feminino versus masculino não serve.
Visceral para chorar, gritar, gargalhar, brigar  por uma boa causa e marcar a  opção “com emoção”.
Xis da questão, ou seja, ela sabe a que veio e não vacila para contribuir com aquela  dica que abre caminhos em seu projeto.
Zás-trás para decidir pelo zelo da amizade.

Cada amiga uma letra, várias letras para cada amiga. As possibilidades são  muitas, a  constatação é única: mulheres e amigas produzem combinações que movimentam os sabores de minha vida  com a  dose exata!  



sexta-feira, 2 de março de 2012

As aulas voltaram com "Socorro Nobre".


Sexta feira, 02 de março de 2012.

8:16
Na abertura das mensagens do dia, encontro a mensagem “ Filme Socorro Nobre”. Vinha de Paula Marques, amiga e colega pesquisadora. Estamos a falar, pensar, pesquisar,  entre perguntas com  o aprender e a liberdade. 

Ela, por escutar uma criança que lhe procura para aprender. O menino   faz pares, trios, quartetos  com as  letras que dançam em seu caderno, mas não param em sua memória para virar leitura de palavras, frases, texto. Ele faz isso no tempo que sobra, depois da escola e de seu trabalho em casa. Depois da escola? Sim. Na escola não consegue aprender. Ou seria porque na escola não consegueM  aprender com ele...

Eu, entre adolescentes que não encontram um lugar na escola depois de estarem marcados pelo percurso de um ato infracional. Com certa insistência  podem virar um * para alguém olhar com mais atenção para este “caso”. Mas há uma fila de espera para adolescentes, com ou sem infração,  aprenderem...

Um dos filmes que nos ajuda a pensar esta vida brasileira é Central do Brasil.  Depois de falarmos sobre isso até as 22 horas de primeiro de março, cai na  minha caixa de mensagem, às 00:46hs de dois de março, um vídeo que esteve entre as  inspirações de Walter Salles  para a escrevedora de cartas de Central do Brasil. 

8:26 
As lágrimas invadem... A  tristeza de uma humanidade    que faz da liberdade uma vida que aprisiona. A  sensibilidade  de uma arte, inspirada nas  terras brasileiras,   que faz    das   palavras o encontro com a liberdade.

“trabalha com uma coisa que todo mundo joga fora”
Maria do Socorro Nobre.

Março chegou e as aulas voltaram...