domingo, 26 de agosto de 2012

Agosto e uma paixão.



Na  escuridão que a noite anuncia, ela tem a sensação de ficar nua e só, pois não situa as cores de suas vestes e perde-se dos encontros do dia. Algumas  luzes e movimentos, aqui e ali, sinalizam: não estás sendo abandonada, apenas entregaste o corpo ao silêncio da noite e ao  adormecer do sol. A lua anda por perto para lançar alguma direção, acompanhada  do lençol de estrelas que banha o labirinto que habitas.

Nos primeiros dias deste mês,  ela amanhecia com  o sol  disfarçado de  nuances de uma luminosidade que anunciava ares quentes. E, assim,  foi  acostumando-se com as manhãs de inverno impregnadas de  sinais de primavera. Sensação de que o vestir-se com as cores do cinza era dispensável, pois dizia de um tempo que precisava  guardar seu corpo  entre  as sombras que  protegiam do frio.

Ao final da manhã,  as nuvens partiam para deixar os caminhos ensolarados,   ficando  a certeza que os adereços coloridos já poderiam fazer parte de sua vestimenta. Afinal,  despontava uma flor amarela que pouco se importava com sua solidão entre galhos marrons que lembravam o inverno.



Entre trajetos e ruas, vivia o andar de pés e rodas movimentando  as folhas amareladas que restavam do outono. Na busca de uma  direção o olhar encontra  os galhos salpicados de brotos que indicam a chegada de tons verdes da nova estação.

Acompanha o compasso  acelerado de veículos  e caminhantes ligados a rotina diária de mais uma jornada.  Sim, por vezes, ela  é invadida pelo movimento  daqueles que não se desprendem das ruas e prédios, alimentados pela ideia de que o importante é retornar ao endereço certo, esquadrinhado entre os sinais de trafegar e parar. Nada parece acontecer  entre os trajetos daqui e ali.


Os  dias de agosto seguem e o sol já não se envergonha de chegar, acompanhado de  ares  quentes, numa  estação que ainda solicita o arrepio no corpo.

O detalhe amarelo, que despontava com certa timidez ao arriscar um tom   colorido  na estação fria, ousa vir acompanhado com os tons de roxo, rosa, salmão ...  Ela já não vacila quanto a colorir suas vestes e,  nos percursos de seu corpo, afirma  a convicção  de que  neste  agosto a vida se fez primavera. 

Muitos foram contaminados por esta paixão de cores e ares. Além do olhar encantar-se com sua vontade de cor, o vento enamorado faz a  flor voar para indicar o caminho a seguir.

Os desavisados das andanças  de uma paixão podem dizer: mas de que primavera   falas se hoje temos somente a   chuva acompanhada dos  ares do verdadeiro agosto?

 A paixão primaveril que inspirou os vinte e poucos dias de agosto não vacila com a estação do frio que deseja  retomar sua terra: a água que percorre as vestes coloridas tornam as cores  mais vivas.


Nada sabes sobre o que se passa?

Mas andas a fazer teus trajetos  guiado pelo corpo dela.  Num mesmo dia,  experimentas suas mudanças de humores entre temperaturas que aquecem e esfriam tua pele. Ou, ainda, combinas trajetos a percorrer  para fazer da vida em seus labirintos uma agenda mais rápida na busca de teu destino.

Queres arriscar  essa paixão pelo que parecia não existir em tua morada? Basta despir teu olhar e fazer da  nudez de quem olha a sensação  de uma primeira vez nos trajetos de seu dia.  Algo está acontecendo...


Teu olhar pode pousar neste  porto que escolheu vestir-se de cores apaixonantes para tornar-se ela a cidade de Porto Alegre feita da inusitada primavera de agosto de 2012. 







domingo, 12 de agosto de 2012

Aprender com botões.





Uma dica amiga coloca no percurso de um sábado o filme “A Guerra dos Botões”, de Yann Samuell inspirado no livro de Louis Pergaud. 
Para os apreciadores do cinema é possível buscar versões anteriores do filme (1932, 1962 - dizem que é a melhor, 1994).
A versão atual parece escondida, pois nada ouvi falar sobre, muito menos constatei na grade de programação do cinema comercial. Devo estar ficando cega…. 

Por que será que um filme de tanta beleza, feito da   reflexão com  a infância e a educação não aparece em nossas opções?? 

Felizmente, a dica amiga provocou a sensação de que os botões já disputavam um combate com minha agulha e linha. Foi assim que cheguei à Casa de Cultura Mario Quintana,  lugar perfeito para acolher  um tempo de sentir a plenitude da vida  com a bela arte do encontro entre o cinema e a literatura.

Produzido na cronologia de outra época, mas feito da sensibilidade com a vida da infância que habita todos em qualquer tempo. Basta estar sensível ao que  sentimos, olhamos, escutamos.

Alegre e bem humorado entre o guerrear de dois grupos de crianças que enunciam em suas disputas as diferenças dos modos de viver de duas comunidades. Nos leva a visitar a própria infância e as invenções  espertas de nossas crianças…

Os impasses de como aprender, ou melhor, do que nos leva a  não aprender. E, logo mais,  a astúcia do professor para fazer daquilo que movimenta as vontades juvenis a inspiração de uma singular pedagogia para  chegar ao que precisa ser aprendido.

O limite das disputas de uma guerra “de brincadeira” quando o soldado retorna da guerra “de verdade”   e com seu olhar sem brilho  indaga: para que?

E seguimos com o lugar dos pais, quando uma mãe faz a escolha do filho para que ele se torne “alguém” e recebe a pergunta: mas ele já não é “alguém”?

E os modos como as crianças podem criar alternativas e construir coletivamente as suas respostas. Entre botões disputados, recuperados,  costurados, o crescimento e a  independência são  exercícios da liberdade para aprender e ser.

E no decorrer do que era uma guerra de meninos vão sendo  alinhavadas outras conquistas com  a beleza de fazer da diferença a aprendizagem da vida. Menores e  maiores,  meninos e  meninas,  erro e  compreensão, crianças e adultos, ganhar e perder, viver!

E quando tudo dizia de um final  marcado pelo  giz, que nas mãos das crianças  fez do  chão da cidade o quadro sem escola, vem a chuva para levar as marcas e dizer que tudo está aí para um combate com os botões que recebemos, escolhemos, perdemos…

Ensinamentos da vida: Vô Dionísio.




Dia dos pais nos leva a visitar a estrada do lugar da paternidade percorrida em nossas vidas. Meu pai partiu faz algum tempo, mas  sua presença  permanece nos aprendizados herdados e atualizados no caminho que segue. 

Nesta caminhada encontrei   familiares e amigos que dão continuidade a essa herança de afetos e valores. Entre eles,  uma figura muito querida  pousa  em minha minhas letras, e escolho parabenizar de modo especial neste dia dos  pais.

Falo de um pai, avô (de meus filhos) e  bisavô,  com quase um século de vida. 97 anos feitos  do cuidado com a vida passo a  passo. Em seus atos o dedicado cultivo das relações com seus filhos, netos e bisnetos. Com  certeza "um pouco pai" de muitos que moram em Nova Prata e nas redondezas desta bela cidade do interior gaúcho, pois sempre atento às relações da comunidade  na busca de uma  vida solidária. Cidade que o conhece pelos passos nas ruas,  já marcados com  sua história, entre  décadas que produzem sentido para todos.

Nova Prata - RS
Em tempos de descrédito na vida política, com ele lembramos a  prática da discussão e de uma séria  organização partidária,  com a convicção  de que um voto pode fazer  diferença. Sim, sempre estive na oposição de  sua escolha, mas isso nunca foi impossibilidade  de convivência. Pelo contrário, indicou  caminhos da  construção de posicionamentos e projetos a serem assumidos.

Então, escolhi falar deste pai, pois com ele afirmo  aprendizados entre heranças afetivas e  efetivas. A presença de adultos que assumem sua vida com determinação,  compartilham sua  experiência de envelhecimento e indicam  ensinamentos de escolhas  a serem cultivadas em nossas vidas.

Encontramos algumas pistas de como um século de vida foi sendo edificado:
- Dedicado aos prazeres que temperam a vida: o amor, a conversa,  uma horta, as viagens, um carteado, um bom vinho.
- Determinado com o que lhe traz segurança: a família,   o trabalho e  a celebração destas formas de pertencer e ser.
- Posicionado  em suas convicções : a fé  e  a política experimentadas no respeito e diálogo com a comunidade em que vive.


Escolhas sobre as quais  podemos discordar, mas que apreciamos por serem límpidas e expressas com clareza, possibilitando  pensarmos em quais são as nossas opções ...

Alguém que nos inspira com uma história feita da determinação de suas vontades  e da conquista da vida que acredita. O gosto pela vida como tarefa a ser alimentada  todos os dias, com hora marcada no relógio!!

Parabéns e meu especial  carinho ao Vô Dioníso que   com sua presença nos torna esperançosos com o nosso futuro, lançando luz para conquistarmos  as pistas de nossa  longevidade. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Na estrada ...



Andava relapsa com a arte do cinema.
Por acaso assisto uma entrevista de Walter Salles sobre o Filme "Na Estrada".
Nada sabia a respeito.
Alguma lembrança distante do livro que inspirou o roteiro, On The Road de Jack Kerouac .

Dia embrulhado para ficar em casa entre letras para ler e escrever. Mas insistiam as cenas do filme feitas das palavras do diretor que adoro. Uma história de vida instigante de personagens trilhados pela trajetória do próprio escritor. Movimentos entre uma sociedade que normatiza como devemos ser e uma estrada a experimentar.Qual a fronteira? Já estava na estrada, era preciso seguir.  

Escrevo no movimento do filme, ignorando quase tudo que o produziu, mas invadida pela vontade de fazer algo com a sensação que ficou. A busca da vida na intensidade das vontades. 

O filme termina e eu permaneci ali, entre os créditos finais, sob efeito da melodia que trilhava estradas.
Música que iniciou o filme, andou com ele e finalizou.
Finalizou?
Era preciso sair da sala de cinema.

Na passagem ouvi alguém dizer: … não gostei …
O que poderia dizer sobre gostos e desgostos neste percurso?
Encontro vontades.
Elas não gostam, elas vivem!

O filme é trilhado num período de cerca de três anos, mas a vida inteira está ali.
Vida inteira … o que seria uma vida inteira?
Quantas vezes estamos instalados num instante que contem a inteireza da vida e ali queremos ficar, mas vem o combate com algo que pede passagem.
Quantas vezes vivemos dias e dias sem experimentar instante algum, e já não sabemos para que passar.
Qual  o tempo de uma vida quando o que nos move é a intensidade do vivido?

Vontades em ato na geografia de estradas feitas do movimento de vidas amigas.
Menos que o próprio corpo, pura sensação que se abandona no percurso da experiência para estar no instante.
Muito mais que o próprio corpo, pois necessita do contágio com o outro para experimentar-se no tempo  de muitos.


E lá estamos sentindo a chuva no rosto, o frio nos ossos, o sol escorrendo com o suor numa colheita de algodão, a febre de tanto viver, a dor de um olhar e de uma escolha a fazer…


Arriscar viver vontades sem vacilar.
Quem somos antes e além da geografia da casa, do nome, do trabalho, da família, da cidade?
Estamos na estrada.
Mas qual?

Para acolher tal intensidade uma interlocutora inquestionável:a literatura.
Está entre personagens,
está na obra que inspirou o filme,
está na vida.

Tão poucos ousam a vida de escritores.
Mas escritores da vida todos somos, inscrevemos  vontades na estrada que movimenta nosso mapa.
E se a coragem vacila, temos a arte.
Sempre determinada. Em prontidão para acolher o que faz nosso corpo pulsar sem vacilar.

 E, assim, abandonei minha abstinência com a bela arte do cinema.