sábado, 19 de janeiro de 2013

Mar


Mar.
Andei de um lado para outro da cidade com  o mar a acompanhar meu olhar.
Algumas horas de distância deste enamoramento e ao retornar  ele  sumiu!
Mais alguns passos e a sensação de abandono  partiu.
O mar estava a brincar  com os movimentos da lua.
Coisas da maré.

Então,  meus passos foram conduzidos pelo  som de tambores acompanhado de vozes femininas.
Abandonei o mar e suas brincadeiras de ir e vir.
Andei por ruas e casas de outro tempo.
Entrei no túnel de nossa história levada pela  cartografia   de uma  nova cidade em meu mapa.

Os tambores faziam a percussão de meu coração como se ali encontrasse um destino.
Percussão da vida brasileira que toca aqueles que habitam, antes do próprio endereço,  a terra deste país de todas as latitudes.
O ecoar dos tambores convidava para seguir  com o movimento da  dança no passo do olhar.
Subir e descer  ruas e  escadarias num labirinto  cultural.
Cores de hoje, cores de ontem, azulejos desenhados entre cores.

E vislumbro o mar novamente.
Um morador, atento as minhas interrogações com uma amiga,  responde sem ser perguntado.
Uma fala afirmativa, mas acompanhada de certo desgosto …
Arrisca perguntar às turistas se enxergávamos tudo da cidade.
Tudo?
Sim, para além do centro histórico e dos novos bairros feitos das torres que olham o mar à distância. As ruelas, a periferia, o chão de poeira,  as casas feitas de tudo um pouco.
Como muitos territórios de capitais brasileiras,  lugares onde  a vida da maioria  é esquecida.
Sim, vi entre meus percursos de “estrangeira” o que um turista “não deve” ver.
Mas pensei:  tem o mar…
Quilômetros de águas com seu sabor de sal e o dançar das ondas que rondam a cidade.
Águas de todos.
Não…
Este mar  não é para  ninguém.
Andamos, perguntamos, insistimos e ouvimos a mesma sentença: o banho é proibido.
Mesmo  onde a “nova” cidade  é construída, as  torres contribuem para o desuso do mar.
Não é "mérito" desta cidade, quantas capitais brasileiras salgadas e doces vivem  águas proibidas?
Mas ali  o contraste da imensidão  do mar com a impossibilidade de seu toque faz sentir a maresia da dor.

E o olhar mareado é desviado pela  magia de uma cultura que ecoa nas insistentes batidas do coração.
Seguimos.
  
Entre as tonturas do mar que conta as histórias de  Alcântara e São Luís do Maranhão encontramos a jovem professora que fala  desta terra com firmeza, entre o  gosto pelo lugar de ensinar e  o olhar apaixonado pela vida feita com o movimento de mudar.

Na onda do Bar  “Antigamente Saint-Louis” degustamos a pimenta com pata de carangueijo provocando tamanho  riso que  fez encontrar,  em  outra mesa,  a amizade entre cidades -  Porto Alegre,  Manaus e Florianópolis.

E o sonho chega com a convicção de um jovem que  enuncia o orgulho com  seu aprendizado e trabalho no belo e saboroso Restaurante Escola.   Rua do Passeio na   esquina com “minha” rua,  Rua do Giz.  Sim,  fique atento, podes  encontrar a tua rua no centro histórico de São Luís: Rua da Paz, Rua do Sol, Rua dos Prazeres, Rua das Flores, Rua das Hortas, Rua da Viração, Rua da Inveja, Rua da Saúde, Rua da Estrela, …

E voltei com o balançar do tambor de crioula que pousou em meu coração numa das casas destas ruas feitas de história. No meio da morada  o pátio com o teto feito da lua com as estrelas. O som dos  tambores no tato das mãos masculinas ressoa no movimento dos corpos femininos,  entre saias coloridas que rodam o tempo.

Em minha memória está o olhar de uma destas mulheres, cujo  brilho e altivez vislumbram  a certeza de que é preciso fazer de nosso movimento um horizonte em busca da herança que abandonamos. 
O mar. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Parar



Cessar no movimento.
Não passar além de.
Diz o dicionário sobre suas explicações ao verbo parar

Já no google parar vem  acompanhado...
Parar de fumar
Parar de roer unhas
Parar de seguir quem não me segue (?!)

Parar de seguir quem não me segue...
Descobri que as conhecidas preocupações com fumar e roer unhas tem uma nova concorrente: como manter seguidores nas redes sociais ....

Mas e parar de pensar que quero parar de fumar
Parar de pensar em parar de roer unhas
Parar de seguir quem não  me segue e quem me segue
...

Parar de escrever
Essa era a causa de minha pesquisa!
Fiquei um tempo distante das letras que invadem o movimento das mãos
Cheguei a pensar que a tal escrita tinha partido com o giz feito pó
Grafias apagadas

Quem sabe escrever era apenas um desvio de outras vontades
Uma passagem que ficou para trás
Parei logo depois de meu aniversário
Seria um efeito da idade?
Tempos medidos para essa ou aquela tarefa na vida...

E passei  dias convencida desta tese!
Muito  a fazer, a cronometrar, a experimentar.

Cadernetas esquecidas.
Canetas e lápis,
antes sempre em falta,
agora sem função ...

Parar. Cessar no movimento.

Permanecer
e  fazer do ficar a vida
  
Residir
e morar no próprio olhar 

Descansar
e sentir  que algo passa consigo

Parar 
e  ter como par o ar