domingo, 21 de dezembro de 2014

"Memórias Petianas"

3 anos, 4 meses, 19 dias ...
Um dia depois 

Uma pasta na mesa 
Quinze cartas
Algumas imagens
Um desenho-arte em nanquim
Histórias
Um vestido de outra terra
Um bombom sonho de valsa

Presentes de uma despedida.

Carteiros, fotógrafos, artistas, costureiros, degustadores, historiadores?
Iniciamos com o nome da pasta, uma pista sobre esta escrita: “Memórias Petianas”.

“Petianas” deriva de PET, Programa de Educação Tutorial. Uma política do Ministério da Educação, criada em 1979, que trata das estratégias de ensino na política de educação superior. De lá para cá, décadas  que foram criando novas configurações do programa, considerando a relação entre ensino superior e as  demandas do povo brasileiro.

De que se trata?
De uma proposta que reúne um grupo de estudantes de graduação (bolsistas PET)  com a orientação de um tutor (professor da universidade) para  construir  um plano de trabalho que ensina, pesquisa e realiza extensão em atividades associadas as demandas de comunidades, dentro e fora da universidade.

Mas no que se diferencia da sala de aula, do grupo de pesquisa, dos projetos de extensão já existentes? Ao me despedir desta singular experiência, afirmo como diferença  o trabalho de um grupo de estudantes que descobre sua capacidade de autoria coletiva na formação e no modo de atuar com as demandas educativas de seu curso e da sociedade brasileira. Responsabilidade e  trabalho coletivo na afirmação de relações educativas, cidadãs e éticas.

O que eu poderia dizer do PET? Tu tens uma ideia, conversa com o grupo e percebe que ela  pode ir adiante, então descobre um jeito de espalhar para muitos...”.  Na descrição das diretrizes “ novas práticas  pedagógicas”.

E como este assunto vem habitar este espaço de escrita “não acadêmico”?
A despedida de minha função de tutora pousou por aqui, o porquê as letras tentam enunciar. Não escrevo sobre os planos e os relatórios que estão cadastrados no sistema. Entre as linhas de  construção destes importantes arquivos, os quais  sistematizam um modo de fazer educação na universidade,  encontro as  memórias que contam aprendizagens sentidas  neste trabalho.

Escolho compartilhar alguns fragmentos desta história trazidos pelos ventos de sentido de uma despedida.  Nuances que escapam dos registros institucionais e, ao mesmo tempo, constituem a força que os movimentam.

Entre as 150 “reuniões das sextas”,  o coletivo de trabalho debatia o curso de graduação em psicologia e  a função da universidade pública.  Mas era nas avaliações de saídas e entradas de bolsistas que a experiência tutorial era enunciada na singularidade de seus  sentidos.

Antes de fazer parte do PET, eu percebia em alguns  bolsistas uma inspiração do que poderia fazer na universidade, para além do que estava previsto num currículo, creio que até quem eu queria ser.

Com o Pet aprendi a me posicionar, expressar, prosseguir e escolher projetos. Chegava  na sala 128 e sempre encontrava um sorriso, um abraço, alguém pronto para acolher quando eu nem sabia muito bem para onde ir...

Escutava a colega que era do Pet e pensava: Ela sabe o que dizer...

A mensagem dizia: você foi desligada... Quando entrei no  PET trazia um certo desgosto da experiência de grupo no  colégio. Seria um desafio. Aqui experimentei o pertencimento. Fazer parte da engrenagem de algo que fazia sentido. Responsabilizar-se e  quando faz  - ou não faz - perceber o compromisso desta ação no coletivo.

As falas  que visitam minha memória enunciam  marcas  do que se aprendeu, sendo que   a lembrança do trabalho de quem  passou parece constituir-se como um legado. Um singular espaço orientado pelo trabalho coletivo e pela forma como  estudantes  constroem suas relações com o trabalho de aprender e ensinar.

Quando se decide sair do grupo, fica um certo temor de que algo não vai funcionar e vamos percebendo que as pessoas vão assumindo,  as atividades vão acontecendo, pois os elos de ligação e compromisso não dependem de um, mas das relações que se mantém entre as pessoas e o projeto comum.

Na saída da colega, ela  chorava.  Eu estava chegando e não entendia tanta emoção. Hoje eu sinto o toque da lágrima.

Tu fizeste a tua música  e chegou a hora de inventar outro  tom em outro lugar, mesmo assim seguiremos cantando a tua letra. 

Lembrei dos primeiros encontros entre grupos do PET, regional e nacional, que participei em 2012. Muitos problemas  em debate quanto a  gestão da política e nossas diferenças quando ao modo de conceber  a política de educação tutorial. Entretanto, o que permaneceu  na minha memória foi  a enunciação de  estudantes universitários de todo Brasil discutindo sua formação, a universidade, a  política de educação superior. Jovens com posicionamentos, práticas, argumentos, debatendo semelhanças, diferenças, propostas. Temos ciência do que este espaço significa?  Que outro lugar reúne professores e estudantes para pensar os modos de praticar a política de educação superior em nosso país?

Dizem os dados que, em 2014,  são 841 grupos em 121 instituições de ensino superior. E  poderíamos quantificar o número de colegas de curso,  de outras graduações,  das comunidades com as quais trabalhamos. Uma rede sem fim neste imenso país. Números importantes  que situam  a abrangência desta política e  justificam o investimento de recursos para sua manutenção.

Aqui ficam  cerca de 5000 caracteres na tentativa de acolher o movimento de sentir o que fazemos ao   afirmarmos a educação com a autoria de estudantes construindo um modo de aprender  coletivo. E para que uma tutora, um tutor: para sustentar um espaço educativo em que o   estudante percebe que pode se tornar o que deseja e que este desejo não diz somente  de si, mas de um modo de aprender  a ser conquistado com o outro. Uma política educativa.


Ah!!  E quem são os carteiros, fotógrafos, artistas, costureiros, degustadores, historiadores?

Estudantes de psicologia e bolsistas que  habitam este fragmento da  "memória petiana": Alexandre, Camilla, Carolina,  Daniela, Daniele, Débora, Diego, Gabriela, Gilmar, Helena, Iria, Julianna, Julieth, Letícia, Liana, Lucas, Luiz Henrique, Marina, Marcos Rafael,  Michel, Paulo Roberto, Raul, Renata, Rodrigo,  Simiana, Silvana,  Thiago, Thanise, Willian.


E  na partida é possível  entregar a  chave com um chaveiro,  como uma amiga que parte,  mas deixa um vestígio de  seu trajeto,  pois  tanto os que  ficam, como os que partem   compartilham o mapa de compromisso com a formação e a universidade pública na morada da vida que desejamos para todos.




Agradecimento: 
Aos brasileiros e brasileiras que sustentam uma política pública de ensino superior.
À colega Jaqueline Tittoni que indicou a parada nesta estação.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ela chegou!



Ela tem dia marcado para chegar.
A precisão com que escolhe viver prende nossa atenção.
Enfim, algo sabido e planificado na imprevisibilidade da vida.

Mesmo confiante em sua beleza e  poder de sedução, pois não depende da hora de chegada para ser querida, espalha aos quatro ventos quando vai pousar. Um convite  para que suas vontades sejam atendidas em cada detalhe.

Gosta de ser observada, falada, cheirada, tocada.
Sua presença contagia e há uma tendência de nos  sentirmos um pouco ela. Mistério do tesouro que guarda.
  
Mas ela também passa pelos  efeitos do tempo. Não se  trata  exatamente do envelhecimento. O segredo de sua  beleza ultrapassa essa incontestável condição de nossa vida.

Então, faz do imprevisto nova regra para cativar, deixando seus amantes a digladiarem-se com a vontade de tê-la ao lado. Brinca com nossa paixão e pode adiar sua plena expressão. Ficamos aguardando o momento de abrir  a janela guiados pelo olhar de  sua beleza em  cada amanhecer.

Dias floridos com o sol a irradiar especial  luminosidade. Nosso olhar a mirar o céu azul com um confortante e colorido infinito. 

A primavera chegou!

Entre dilemas da vida que ignoram  a parada numa  estação, o alento para quem ousa  conviver com quem faz de seu tempo motivo para  existir e apaixonar.









segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um fio para guiar a intimidade



Você já imaginou ter o labirinto da intimidade da vida em suas mãos?

Percorrer seus  caminhos com o olhar, vaguear em busca de uma direção e encontrar no toque um fio que guia. Diante da sensação de perder-se, insistir  no movimento do toque e vislumbrar um fio de letras. 

Letras?
Seria um enigma?
Talvez.

Depende de como experimentas o inusitado que move a vida. Para alguns um enigma, pois a experiência de entrega aos movimentos da intimidade pode sinalizar  o medo de encontrarmos o que ainda não sabemos de nós mesmos. Um labirinto.
        E o fio de letras?
Sim! Agora você tem a opção de prosseguir com Labiríntimo, um livro de poesia. 
No toque de cada página a grafia de uma pista que acalenta o passo. A  leveza do papel para  imprimir nosso afago e habitar as sensações na cumplicidade com a poética do autor. A pista de sua obra: acarinhar o que passa desapercebido na aceleração da vida e  habitar as sutilezas  do tempo. Observar a natureza  acalentando o movimento do sol, da lua, da chuva …

       O destino  que nos conduz neste labirinto da intimidade é  a escolha por sorrir de si mesmo e  se acaso a lágrima estiver por perto, sem problemas. Como anuncia Labiríntimo: cada acaso é um caso! Abandone a caixa de lenços e faça da solidão companhia. Afinal,  agora o fio que nos conduz é o gosto pela poesia. Na  busca de um pouquinho de si, mais um passo no encontro com o seu labiríntimo. O pequeno livro não tem fim quando se trata de produzir sentidos, basta deixar a imaginação pulsar!
O autor deste singular mimo?
Nildão

www.nildao.com.br - newdao@ig.com.br






sábado, 18 de janeiro de 2014

A lucidez de Elena


  Recebo a mensagem de que temos mais uma chance para  encontrar Elena em Porto Alegre.
De quem se trata? Eu poderia trazer sua história e argumentar com a trama de sua  vida o porquê deste encontro. Mas prefiro  revisitar  os afetos que permanecem comigo, depois de viver as intensidades  da experiência de um dia que se fez marca no calendário de 2013, mas que me toca sem passar no tempo.  
Numa tarde molhada, andei pelas calçadas que levam à Casa de Cultura Mario Quintana. A chuva era a companhia exata para chegar à sala desta sessão de cinema. Dia para abrir aquela caixa onde  guardamos  vestígios do tempo nas estações dos  afetos: cartas, fotografias, bilhetes, pequenos objetos, diários, imagens que contam  a vida. Um dia feito para perder-se na intimidade de memórias que guiam nossos trajetos   à medida que percorrem o enigma do esquecimento   para receber a visita de nossas lembranças. 
História de Elena sob o olhar da irmã. História da irmã na insistente memória que pousa em  Elena. História delas, tua, nossa. Imagens que ultrapassam uma vida para nos tornarmos íntimos nos sentimentos que percorrem a existência.
Por vezes a sala de nossa casa, o  quarto que nos esconde. Pode ser também a rua onde tantos transitam e entre eles o singular pisar de Elena. A chuva levou os vestígios do passo que marcou o  chão, mas permanece o  movimento de um  olhar que nossa lembrança faz traço no tempo.  E na partida de quem amamos as dores da vida que insiste em prosseguir. Entristeci.
   Um convite para se enredar na sala de um cinema e entristecer? Sem a companhia da chuva e  em pleno sol de verão?
       Talvez.
     Sim, eu senti a dor da tormenta que nos faz  colocar a vida em questão. Dos vacilos que nos dilaceram na lembrança do que poderia ser, mas já foi. Mesmo assim insisto no convite. Encontro  o ato corajoso de fazer do movimento da dor da  própria vida a película da expressão. Ousar sentir com o outro o que se passa na pele de nossos corpos. 
     Triste e  sensível, denso e  afetivo. Transparente na arte de expressar a força que produz a  vida. Corajoso.

O documentário ELENA, de Petra Costa, terá cinco sessões – entre os meses de janeiro e fevereiro de 2014 – no Cine Santander Cultural, em Porto Alegre.