domingo, 10 de maio de 2015

Sabores da Memória Materna




Dia em que  as lembranças familiares invadem.
Pousa por aqui a  memória  materna  com um  imenso afeto.
Um tom de tristeza pela ausência de quem falo, mas as palavras invadem   afirmando a memória de aconchego que se mantém na  vida que embalamos.

De sua infância sei que brincava com  bonecas inventadas de pano e o que encontrava  pelo  pátio da casa  com  irmãs e  irmãos de uma família numerosa. Entre terras da serra gaúcha,  as marcas da bagagem de avós italianos que aqui  construíram uma vida brasileira. 

Ela sempre tinha histórias recheadas da boa  comida da Vó Menega,  do cotidiano de muito  trabalho na terra e dos encontros de família movimentados pelas canções italianas.

Impossível esquecer de suas latas de biscoitos - entre eles os "dedinhos de mel" - os almoços de domingo e a mágica de mil delícias que invadia a mesa com o simples anúncio: "vamos tomar um cafezinho".

Se por aqui  estivesse,  o tema de cada mês seria o bolo do aniversariante da família acompanhado do desejado presente,  esquecendo que seu sorriso  com a vida  era o presente que nos guiava todos os dias.

Com a mais nova netinha e com o primeiro bisneto passaria a ficar  do tamanho exato dela e dele, pois tinha o dom  da  brincadeira fazendo de sua condição de adulta o sonho que a infância necessita para acreditar e crescer - fazer biscoitos, banho de chuva,  puxar o carrinho de mão!  Também cuidaria do estilo de vestir dos dois, tricotando casacos  que acompanhariam as tendências de cores e os pedidos dos pequenos para fazer do inverno um  tempo de aquecer.

Fica  a certeza de que,  se aqui estamos, celebrando com alegria  a vida que segue em nossas mãos com nossos filhos e filhas,  é porque as aprendizagens da  experiência e das  palavras que contam nossa história tem os ingredientes desta  mãe querida, a Vó Tere.

Então,  nossa memória  sinaliza que o  mapa feito de  vidas amorosamente compartilhadas é movido pela força deste encontro. O intenso afeto permanece, será que ela partiu?





domingo, 29 de março de 2015

Flores Raras - Morada de Afetos





Um dia cinza.
Daqueles que solicitam o aconchego de casa.
Quem sabe para viajar no tempo a imagem de  um filme.
Entre as opções,  um título inspirador e a lembrança de um comentário esquecido quanto a precisão das palavras, mas insistente no afeto que afirma seguir em sua direção.
Nas primeiras imagens  uma conversa amiga em que segundos de letras marcam um destino:
“-  Estou cansada... vou viajar
      -  Ah. A cura geográfica”.

Quem não viveu esta partida?
O encontro do mapa de si em terras alheias.
Até escolher um lugar, mas só para desviar a incerteza de não saber para onde ir.
Andar com a bússola do trajeto que o lugar nos leva.
Guiar-se pela força de um passado,  apresentado como  novidade para uma viajante que se entrega  ao tempo dos prédios, praças e ruas. E perceber a singularidade do percurso nas cores da natureza, entre flores que  nascem,  morrem e  situam a permanência das construções.

Movimentos do filme Flores Raras
Arte de ousar viver uma forma de  amar que o preconceito  fere e a hipocrisia desdenha. Fragilidade  acolhida na força que se afirma com a  coragem de expressar pensamentos e afetos. Arte que transforma palavras em poesia, geografia em amorosidade,  cidade em arquitetura do encontro.


Sim, ficam lacunas sobre posicionamentos políticos, revelando que sabemos pouco da história  de nosso país, seja dos fatos ou das marcas que estão em endereços que permanecem. Há, também, conforme  críticas, exclusão de nomes da  história de nossa arquitetura.

Mas fui invadida por outras arquiteturas que planificam a vida. Pulsa a  indagação da memória esquecida de como as mulheres também construíram a pólis brasileira e produziram vidas inventadas. Outros modos de amar,  se relacionar,  criar famílias. Vida ocultada no silenciamento da diferença.

A cura geográfica não enuncia apenas o combate de uma vida, mas o necessário  caminho  traçado por   mapas que acontecem entre  vidas compartilhadas. Escolher como chave de nossas casas a abertura para viver a geografia de lugares que edificam a morada da existência no movimento  do corpo. Ter a coragem de despedir-se do que partiu em nós e prosseguir apenas com a beleza do espaço que a raridade de uma vida permite edificar: paredes feitas da duração do aroma das flores ao seu lado.


sexta-feira, 6 de março de 2015

Decantar


Quando alguém chega esbaforido com algo da vida, minha dica é:
"...deixe decantar ..."
Sinto um olhar ressabiado, afinal a pessoa não está a beber vinho, mas envolta em algo que duvida sobre  como proceder.
Diante da inutilidade de minha presença quanto a como prosseguir, 
sustento o silêncio e a respiração alongada.
Arrisco o encontro de um olhar.
Uma parada no cronograma da vida para habitar o tempo que não medimos. 
Experimentamos.

Ao invés de remoer um pensamento a respeito do que se deve ou não fazer, habitar um intervalo para deixar a vida decantar...

Um  ritual realizado antes de servir o vinho que  busca o primor de sua degustação. Portanto,  é necessário ser escolhida por um vinho, abrir a garrafa,  deixar que a história deste  líquido  se complete entre os ares de nossa respiração.
Estar atenta ao ar que lhe faz contorno, permitindo que o próximo respiro  alongue  o gesto que  conduz ao exercício de degustar.
Entrega ao tempo  sem hora, guiada  pelo   anúncio de que este líquido está vivendo o trajeto de  aproximar-se de seus lábios.

Talvez, já conheças este vinho e sabes do que se trata.
Mas e os humores?
Teus e da singular história desta garrafa que encontra tuas mãos? 
O aroma pode  nos embriagar de um passado que revisita o corpo como ressaca. Aquele zumbido incômodo que enuncia  a repetição do desgosto. Mas pode ser a embriaguez de deliciar  a sensação de querer mais e mais do que passou. É ali - no (des)gosto - que o pensamento se apega como forma de não vislumbrar que o tempo é feito de movimento.
"...deixe decantar..."
Habitar a intensidade da vida  é aceitar que a imprevisibilidade que tanto tentamos evitar é a única certeza que nos move.

Li que a passagem do vinho  de sua garrafa original para um decantador possibilita libertar os aromas que estavam contidos na garrafa,  ampliando a degustação de seu paladar.  
O vinho respira.

Para  decantar a  vida temos o exercício de libertar  o  tempo  planejado, acolher os ares da experiência e apreciar a vista no horizonte.
Deixar para trás os resíduos da explicação e degustar uma conversa solta e amiga, um abraço demorado, um olhar sem fim, uma música que embala, um respiro.

Perder-se no silêncio dos aromas...
E quando  o som  barulhento do pensamento se aproxima com a tarefa impossível de retornar ao que passou, escutar  o ritmo e  deCantar o ruído.
Respirar a melodia da vida acontecendo.
Saborear o líquido que fez da espera o motivo para experimentar  o sentido do presente.
Um mimo da vida.


domingo, 21 de dezembro de 2014

"Memórias Petianas"

3 anos, 4 meses, 19 dias ...
Um dia depois 

Uma pasta na mesa 
Quinze cartas
Algumas imagens
Um desenho-arte em nanquim
Histórias
Um vestido de outra terra
Um bombom sonho de valsa

Presentes de uma despedida.

Carteiros, fotógrafos, artistas, costureiros, degustadores, historiadores?
Iniciamos com o nome da pasta, uma pista sobre esta escrita: “Memórias Petianas”.

“Petianas” deriva de PET, Programa de Educação Tutorial. Uma política do Ministério da Educação, criada em 1979, que trata das estratégias de ensino na política de educação superior. De lá para cá, décadas  que foram criando novas configurações do programa, considerando a relação entre ensino superior e as  demandas do povo brasileiro.

De que se trata?
De uma proposta que reúne um grupo de estudantes de graduação (bolsistas PET)  com a orientação de um tutor (professor da universidade) para  construir  um plano de trabalho que ensina, pesquisa e realiza extensão em atividades associadas as demandas de comunidades, dentro e fora da universidade.

Mas no que se diferencia da sala de aula, do grupo de pesquisa, dos projetos de extensão já existentes? Ao me despedir desta singular experiência, afirmo como diferença  o trabalho de um grupo de estudantes que descobre sua capacidade de autoria coletiva na formação e no modo de atuar com as demandas educativas de seu curso e da sociedade brasileira. Responsabilidade e  trabalho coletivo na afirmação de relações educativas, cidadãs e éticas.

O que eu poderia dizer do PET? Tu tens uma ideia, conversa com o grupo e percebe que ela  pode ir adiante, então descobre um jeito de espalhar para muitos...”.  Na descrição das diretrizes “ novas práticas  pedagógicas”.

E como este assunto vem habitar este espaço de escrita “não acadêmico”?
A despedida de minha função de tutora pousou por aqui, o porquê as letras tentam enunciar. Não escrevo sobre os planos e os relatórios que estão cadastrados no sistema. Entre as linhas de  construção destes importantes arquivos, os quais  sistematizam um modo de fazer educação na universidade,  encontro as  memórias que contam aprendizagens sentidas  neste trabalho.

Escolho compartilhar alguns fragmentos desta história trazidos pelos ventos de sentido de uma despedida.  Nuances que escapam dos registros institucionais e, ao mesmo tempo, constituem a força que os movimentam.

Entre as 150 “reuniões das sextas”,  o coletivo de trabalho debatia o curso de graduação em psicologia e  a função da universidade pública.  Mas era nas avaliações de saídas e entradas de bolsistas que a experiência tutorial era enunciada na singularidade de seus  sentidos.

Antes de fazer parte do PET, eu percebia em alguns  bolsistas uma inspiração do que poderia fazer na universidade, para além do que estava previsto num currículo, creio que até quem eu queria ser.

Com o Pet aprendi a me posicionar, expressar, prosseguir e escolher projetos. Chegava  na sala 128 e sempre encontrava um sorriso, um abraço, alguém pronto para acolher quando eu nem sabia muito bem para onde ir...

Escutava a colega que era do Pet e pensava: Ela sabe o que dizer...

A mensagem dizia: você foi desligada... Quando entrei no  PET trazia um certo desgosto da experiência de grupo no  colégio. Seria um desafio. Aqui experimentei o pertencimento. Fazer parte da engrenagem de algo que fazia sentido. Responsabilizar-se e  quando faz  - ou não faz - perceber o compromisso desta ação no coletivo.

As falas  que visitam minha memória enunciam  marcas  do que se aprendeu, sendo que   a lembrança do trabalho de quem  passou parece constituir-se como um legado. Um singular espaço orientado pelo trabalho coletivo e pela forma como  estudantes  constroem suas relações com o trabalho de aprender e ensinar.

Quando se decide sair do grupo, fica um certo temor de que algo não vai funcionar e vamos percebendo que as pessoas vão assumindo,  as atividades vão acontecendo, pois os elos de ligação e compromisso não dependem de um, mas das relações que se mantém entre as pessoas e o projeto comum.

Na saída da colega, ela  chorava.  Eu estava chegando e não entendia tanta emoção. Hoje eu sinto o toque da lágrima.

Tu fizeste a tua música  e chegou a hora de inventar outro  tom em outro lugar, mesmo assim seguiremos cantando a tua letra. 

Lembrei dos primeiros encontros entre grupos do PET, regional e nacional, que participei em 2012. Muitos problemas  em debate quanto a  gestão da política e nossas diferenças quando ao modo de conceber  a política de educação tutorial. Entretanto, o que permaneceu  na minha memória foi  a enunciação de  estudantes universitários de todo Brasil discutindo sua formação, a universidade, a  política de educação superior. Jovens com posicionamentos, práticas, argumentos, debatendo semelhanças, diferenças, propostas. Temos ciência do que este espaço significa?  Que outro lugar reúne professores e estudantes para pensar os modos de praticar a política de educação superior em nosso país?

Dizem os dados que, em 2014,  são 841 grupos em 121 instituições de ensino superior. E  poderíamos quantificar o número de colegas de curso,  de outras graduações,  das comunidades com as quais trabalhamos. Uma rede sem fim neste imenso país. Números importantes  que situam  a abrangência desta política e  justificam o investimento de recursos para sua manutenção.

Aqui ficam  cerca de 5000 caracteres na tentativa de acolher o movimento de sentir o que fazemos ao   afirmarmos a educação com a autoria de estudantes construindo um modo de aprender  coletivo. E para que uma tutora, um tutor: para sustentar um espaço educativo em que o   estudante percebe que pode se tornar o que deseja e que este desejo não diz somente  de si, mas de um modo de aprender  a ser conquistado com o outro. Uma política educativa.


Ah!!  E quem são os carteiros, fotógrafos, artistas, costureiros, degustadores, historiadores?

Estudantes de psicologia e bolsistas que  habitam este fragmento da  "memória petiana": Alexandre, Camilla, Carolina,  Daniela, Daniele, Débora, Diego, Gabriela, Gilmar, Helena, Iria, Julianna, Julieth, Letícia, Liana, Lucas, Luiz Henrique, Marina, Marcos Rafael,  Michel, Paulo Roberto, Raul, Renata, Rodrigo,  Simiana, Silvana,  Thiago, Thanise, Willian.


E  na partida é possível  entregar a  chave com um chaveiro,  como uma amiga que parte,  mas deixa um vestígio de  seu trajeto,  pois  tanto os que  ficam, como os que partem   compartilham o mapa de compromisso com a formação e a universidade pública na morada da vida que desejamos para todos.




Agradecimento: 
Aos brasileiros e brasileiras que sustentam uma política pública de ensino superior.
À colega Jaqueline Tittoni que indicou a parada nesta estação.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ela chegou!



Ela tem dia marcado para chegar.
A precisão com que escolhe viver prende nossa atenção.
Enfim, algo sabido e planificado na imprevisibilidade da vida.

Mesmo confiante em sua beleza e  poder de sedução, pois não depende da hora de chegada para ser querida, espalha aos quatro ventos quando vai pousar. Um convite  para que suas vontades sejam atendidas em cada detalhe.

Gosta de ser observada, falada, cheirada, tocada.
Sua presença contagia e há uma tendência de nos  sentirmos um pouco ela. Mistério do tesouro que guarda.
  
Mas ela também passa pelos  efeitos do tempo. Não se  trata  exatamente do envelhecimento. O segredo de sua  beleza ultrapassa essa incontestável condição de nossa vida.

Então, faz do imprevisto nova regra para cativar, deixando seus amantes a digladiarem-se com a vontade de tê-la ao lado. Brinca com nossa paixão e pode adiar sua plena expressão. Ficamos aguardando o momento de abrir  a janela guiados pelo olhar de  sua beleza em  cada amanhecer.

Dias floridos com o sol a irradiar especial  luminosidade. Nosso olhar a mirar o céu azul com um confortante e colorido infinito. 

A primavera chegou!

Entre dilemas da vida que ignoram  a parada numa  estação, o alento para quem ousa  conviver com quem faz de seu tempo motivo para  existir e apaixonar.









segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um fio para guiar a intimidade



Você já imaginou ter o labirinto da intimidade da vida em suas mãos?

Percorrer seus  caminhos com o olhar, vaguear em busca de uma direção e encontrar no toque um fio que guia. Diante da sensação de perder-se, insistir  no movimento do toque e vislumbrar um fio de letras. 

Letras?
Seria um enigma?
Talvez.

Depende de como experimentas o inusitado que move a vida. Para alguns um enigma, pois a experiência de entrega aos movimentos da intimidade pode sinalizar  o medo de encontrarmos o que ainda não sabemos de nós mesmos. Um labirinto.
        E o fio de letras?
Sim! Agora você tem a opção de prosseguir com Labiríntimo, um livro de poesia. 
No toque de cada página a grafia de uma pista que acalenta o passo. A  leveza do papel para  imprimir nosso afago e habitar as sensações na cumplicidade com a poética do autor. A pista de sua obra: acarinhar o que passa desapercebido na aceleração da vida e  habitar as sutilezas  do tempo. Observar a natureza  acalentando o movimento do sol, da lua, da chuva …

       O destino  que nos conduz neste labirinto da intimidade é  a escolha por sorrir de si mesmo e  se acaso a lágrima estiver por perto, sem problemas. Como anuncia Labiríntimo: cada acaso é um caso! Abandone a caixa de lenços e faça da solidão companhia. Afinal,  agora o fio que nos conduz é o gosto pela poesia. Na  busca de um pouquinho de si, mais um passo no encontro com o seu labiríntimo. O pequeno livro não tem fim quando se trata de produzir sentidos, basta deixar a imaginação pulsar!
O autor deste singular mimo?
Nildão

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