quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dominó de lembranças paternas



Dias atrás, entre "cartões postais instantâneos" do facebook,   a fotografia do pai de um amigo  me fez viajar aos acolhedores dias dessa convivência.  Neste passeio  de boas lembranças estava  o gosto  da sensação da presença paterna.

Atos que envolvem desde o apoio ao nosso cotidiano até as orientações  que, independente da idade dos filhos, dizem de   sermos vistos sempre com um pé na infância. Ter a permissão para degustar  instantes do lugar de  criança tem seu valor, afinal ser adulto 24 horas cansa…

Inhotim - MG
No caminho da imagem vivida  às semelhanças revividas,  as  pequenas peças enfileiradas do dominó da memória foram movimentadas. Estavam ali, em prontidão,  aguardando o toque     uma na outra, para desencadear  sentimentos na data que a vida arranja. 

Passado e  presente pedindo para  marcar um encontro que se chama saudade.

Quando o lugar de ser filho se ausenta pela morte dos pais experimentamos uma condição estranha. Descobrimos que somos mais passageiros  do que imaginávamos e, num instante,   as posições se alternam   aqui e  ali.  As   peças   mudam de   cor e   companhia, as possibilidades de jogo são outras.


Lembrei de fatos que hoje parecem engraçados como  o impasse por  posições políticas diferentes. Ao afirmar um voto discordante da opção de meu pai, ele cogitou algo como “nesta casa votamos em…”. Ao argumentar  que com ele  havia aprendido a luta pela democracia,   lançou um  olhar como se  pela primeira vez percebesse a filha como alguém com vida própria. A sensação era que ele também não sabia que havia ensinado tamanho aprendizado. Eu não perdi o teto, votamos em candidatos diferentes e ficaram as  alfinetadas nos almoços de família, é claro!

E quanto mais vivemos esse afeto na vida compartilhada, mais segue em nós  uma herança das possibilidades que carregamos. Não por ser fácil essa convivência, pois são muitos os impasses e  as diferenças, mas por termos nesta relação  a vida que conquistamos.

Parece que fica muito mais preciso o lugar de nossos pais quando a ausência se faz. Na presença da saudade descobrimos que, talvez,  aquilo que sempre pensamos ser deles é nosso faz tempo. Com amigos degustamos  pedacinhos dessa convivência entre pais alheios pois, as vezes, ser  dono do próprio nariz faz os aromas faltarem.

“Dia dos pais”ou não,  a cada dia  temos a possibilidade  de compartilhar  os afetos  que movem o dominó da vida.


domingo, 17 de junho de 2012

Jogando com o gerúndio




Ando fazendo peripécias para que o estudo da língua  portuguesa tenha um tempero mais próximo do  paladar de filhos adolescentes. Já que adoro brincar com as palavras, acho meio estranho um certo  desgosto que eles manifestam com este cardápio.

Claro que ao ser apresentada aos polígrafos  com aquelas explicações que cortam e recortam textos para tornarem-se sujeito, predicado, adjetivos, advérbios e por aí  vai, percebi que eu também não conseguia me encontrar entre essas opções.

Entretanto, com a intensa  vontade de escrever, a necessidade de uma orientação se faz necessária,  pois muitas vezes aparecem dúvidas quanto ao modo correto de redigir. Com certeza deixo passar  alguns equívocos gramaticais ... Fico a pensar que não sou um bom exemplo aos meus filhos, pois tenho priorizado expressar   ideias na ânsia de tornar minhas inspirações uma conversa escrita. Seria possível fazer dos erros de um  texto o aprendizado  do percurso de experimentar nossa vasta língua portuguesa?


Nos últimos dias estou no combate com os verbos e as definições de tempos  e modos que embaralham conjugações na hora das provas.  Lá vou eu  estudar os verbos, mais apetitosos  do que os advérbios e os adjuntos adnominais. Mas também  chega um  momento que já não sei conjugar no futuro daqui e de lá. E ainda tenho que dar conta  da questão  que sempre fica pinicando: “se tu sabes escrever e  não sabe tudo isso, porque a gente continua a  estudar  desse jeito, eu também já sei escrever...”

Como tal assunto vem parar  no  blog num domingo de véspera de inverno,  feito para ficar de pijama, comer pipoca e ver um filme? O filme acontece em minha casa e  na casa de mais  três ou quatro amigos de meus filhos. Ou seria uma aula de português com geografia e história  nos tempos de internet, interatividade, comunidades virtuais? Eles  jogam o tal “minecraft” com seus computadores e em distantes e diferentes bairros da cidade de Porto Alegre. Mas habitam um mundo onde criam territórios, construções, textos imaginários e contextos. 


Ouço a voz  de um e outro como se todos habitassem minha casa. Um deles solicita ajuda com urgência,  pois um invasor  entrou no jogo e alterou o curso da história de habitantes já sedentários neste mundo da criação. O audacioso invasor não hesita em revelar seu nome: “Gerúndio”. Não resisti e como intrusa, do mundo de cá,   comentei: “adorei o nome dele”.


Logo depois fui informada que o invasor foi criado por dois integrantes da própria comunidade e que estava prevista a chegada do infinitivo e do particípio.Que tal!? Personagens do mundo dos verbos nos jogos, os quais poderiam ter como senha para compor territórios  os tempos, modos e  conjugações. Quem sabe, uma pista para criadores de jogos e professores inventarem  uma comunidade de verbos entre textos, edificações, explosões e invasões... 


O que sabemos dessas andanças de crianças e de  adolescentes  entre  possibilidades de  aprender nas novas modalidades de jogar e viver com tecnologias da contemporaneidade?


Pouco sei do tal Minecraft e estarei atenta ao assunto. Mas posso afirmar que conheci um pouco mais de meus filhos e seus amigos ao conversar com essa comunidade que joga  rindo, discutindo, brigando, inventando, estabelecendo normas  comuns, transgredindo, brincando. Exercitando o gerúndio.

Enfim, os verbos fazem parte da vida que acontece ao lado dos polígrafos e provas de português.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A agenda e a borboleta


Ela acordou  com a sensação que tinha deixado o tempo passar.
Os lençóis e o cobertor faziam do relógio um artifício sem utilidade. Embalada pelo sábado  cinza achava que  o sol não apareceria para convocá-la a viver a luminosidade de um novo dia. Assim, a lista de tarefas pendentes faria do cinza trabalho.  O tempo engolido pelas   tarefas a serem vencidas seria vivido como se um novo dia não houvesse. Mas os pontos de luz que ultrapassavam a janela convocavam o  olhar e movimentavam os   alinhavos  do  corpo com os lençóis e o cobertor.

Então, levantou. Venceu o trajeto de uma  noite que  permanecia na cama  produzindo  pesadelos com olhos abertos. Fez dos fios de alinhavo o enlace com a janela. O sol inundou o quarto e deixou a escuridão passar pelo  encontro  do corpo com o dia. As linhas viraram caminhos de vento. Já não era possível vacilar diante de tal acontecimento.   A janela aproximou  as ruas que reuniam vozes  a solicitar  a companhia dos passos de mais uma caminhante.

Mas e a  lista de tarefas aguardando?? Ela ficou a pensar que se as tarefas ultrapassavam  a agenda,  nunca daria  conta deste  cronômetro de um tempo sem espaço. E decidiu que   se algo ficaria para trás não seria ela. 


Ilha do Pavão - Porto Alegre
Do caminhar pela cidade veio o convite para andar pelas águas e ilhas  que namoram a vida  deste  Porto envaidecido com seu nome Alegre. O rio acolheu os passos que navegaram  em caminhos guiados pelo céu. Pousou seu corpo numa das  ilhas que, sem marcar hora,  cuida do continente com seu cauteloso olhar  em direção à  cidade de concreto.
Por ali experimentou o som do  vento tocando o corpo, os cantos de pássaros, as   vozes de crianças que brincavam com árvores que viravam naves espaciais.
Enquanto vivia  o tempo de vislumbrar o cotidiano  acontecer, uma borboleta pousou no seu pé atraída  pelo doce da pele  lambuzada  de protetor solar.  Ela fingiu  que a delicada voadora  ali ficara por encontrar  o pólen que guia o passeio de borboletar,  como se sua pele carregasse o sentido  daquele  voo.  Seguindo o movimento da  borboleta,   deitou  na grama e olhou o céu   tocando o azul. Voou...

Descobriu que não queria voltar. Ela já sabia de sua paixão  pelos mares e rios embalados pelo vento. Quando  deles se aproxima sua  âncora dali resiste sair. Mas a embarcação da volta chegaria e a lista das tarefas da semana  faria coro com o barulho da máquina de navegação.  Era final de um domingo e a segunda com sua semana atarefada bateria na porta.

Sábado, domingo ou segunda, os dias da semana seguiam, mas  qual vida ela desejava fazer  acontecer? 
A leveza de um tempo sem agenda alargou o horário e trouxe  a vontade de peneirar as tarefas marcadas. A borboleta deixou como lembrança a delicada arte  de escolher onde pousar.   A agenda  virou  mapa para desviar  o ritmo de um  cronômetro que já não se sabe a quem atende.  
Atenta ao  delicado toque da vida no percurso de seus passos percebeu que  havia escolhido  alinhavar  o corpo ao voo de seus desejos.