quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A vida passa?





O  efeito pós-aniversário pousou por aqui acompanhado da sensação  de que a vida passa...

Os abraços, os beijos e as palavras feitas de delicadezas alegram a passagem de mais um ano. Mas,  no  dia seguinte, sentimos um toque de nostalgia do tempo que passou e que se tornou mais preciso com as 24 horas de afagos do aniversariar.

No instante da troca de  um dia para outro, a  parada do aniversário torna a vida passado. Ao mesmo tempo, a morada de nosso dia  é invadida pelo presente que chega acompanhado  daqueles que compartilham  nossos passos.

A celebração carinhosa faz perceber que o movimento da vida acontece entre    encontros. Não estamos sós no cronograma da idade que afirma um caminho que vem sendo traçado. Por sinal, só estamos por aqui por que um encontro aconteceu! 

E vamos aprendendo a escolher com quem queremos manter  a direção de nosso olhar. A começar por aquela figura que      miramos no nosso espelho. São muitos olhares para encontrarmos quem somos, bem como para descobrirmos a  beleza de estarmos no mapa de tantas  vidas.

A vida passa … mas esta passagem é feita tanto do movimento do que ficou para trás,  como  do passo a passo que traça o sentido do que estamos a  desejar. E, entre pegadas marcadas  aqui e ali, temos o labirinto do acaso que está por aí aguardando nosso caminhar sem passar.





segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Escrita de uma professora.



Entre felicitações do dia da professora  e discursos que hoje em dia não  se deseja mais essa profissão, resolvi escrever. 

As vezes,  achamos que pouco  aconteceu numa sala de aula marcada pelas classes em fila, os horários, as avaliações.  E de repente, anos depois,  alguém lhe diz: lembra aquela aula que disseste tal coisa, nunca esqueci, faz todo sentido no meu trabalho... O ritmo da vida contemporânea desconsidera o movimento de aprender. Queremos estatísticas educativas, futuros trabalhadores consumidores.

Meu trabalho de  professora é povoado de encontros. Um processo que ultrapassa os atos da rotina docente e as solicitações da vida atropelada que acelera o movimento sem saber que destino busca. Vivo relações singulares que  vão sendo impregnadas da vida de cada grupo com o qual trabalho no acontecimento da busca do sentido do aprender.

Algo  acontece que transgride o esforço de planejar e controlar a vida educativa  em  conteúdos e  etapas  que devem ser vencidas. Entre lembranças  visito o texto que escrevi aos formandos  de 2002, no curso de psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Quando esta turma se constituía, em 1998,  eu era admitida nesta Universidade. Em tempos de tanto descrédito nas instituições públicas, me orgulho de ter feito esta opção, pois construo aqui uma psicologia e uma formação que insiste no compromisso social, na solidariedade e no enfrentamento de nosso desassossego contemporâneo.

Não tenho dúvida quanto às contribuições de muitos de nossos estudantes nas mais diferentes comunidades, construindo os lugares da psicologia e da universidade pública em ações comprometidas  com o fazer-se educador no humano.

Não estamos no passado ou no futuro. Optamos pelo acontecimento onde o sujeito se faz a todo  momento, porque agencia a vida na relação com o outro. Portanto, não basta formar-se nesta ou aquela profissão. 
É preciso produzir modos de aprender ao compor o  mundo que vivemos  no diálogo e respeito ao outro.

No cotidiano, a inquietação com a formação e o lugar de educador transborda os encontros de uma sala de aula. Conversamos  nos corredores, nos bares, nos e.mails. Criamos novos projetos, nos envolvemos com as demandas da cidade. Compartilhamos as angústias de como passar  do lugar de estudante  para o lugar  profissional. Debates fervorosos sobre as abordagens teóricas, a greve,  a dimensão  pública de nossa sociedade.

Bem sabemos que  nossa maior aprendizagem  está em criar com o outro narrativas de um saber que o habita para dar forma às suas respostas e que, paradoxalmente,  o próprio sujeito desconhece. Diria inclusive que em se tratando de nós, brasileiros e brasileiras, a principal tarefa é criar visibilidade  ao saber existente e tão facilmente desqualificado. Um povo que trabalha e  constrói de forma digna este país, mas  em grande parte vive com tão pouco, não aprende? Uma subjetividade que se reinventa a cada dia, aprendendo  e ensinando na luta de ser cidadão.

Então, poderia haver compromisso maior de professores e de  profissionais   formados por uma universidade pública, sustentada por cidadãos brasileiros, que implicar-se com a  política de aprender na  vida? 
Quando  inicia essa travessia? 
Ela termina?
Não estamos numa embarcação solitária que atravessa o mar em busca de um horizonte.
O horizonte não está ao final do mar.
O horizonte se produz no nosso olhar.
Então é preciso viver o mar.
Sentir o cheiro do sal.
O toque da brisa no rosto.
A areia nos pés.
Ouvir os sons repetidos das ondas que nos acolhem em seu embalo e nos indagam, a cada instante,  sobre a possibilidade de outro singular movimento.
Um  acontecimento que aguarda nossa humanidade e autoria.
Talvez,  a pergunta já não seja se queremos ser professores, mas se queremos aprender...



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Palavrear



- Você já mediu suas palavras hoje? 

- Como assim? 
Quantas palavras eu disse? 
Quantas letras usei?

– Não...  
Quais palavras, como disse, para quem

como elas se comportam ao vestirem sua voz 
ou 
quando tocam quem escutou

aquela briga entre os lábios,  
quando a palavra se faz  do  desencontro  de nosso olhar,  
e  vai saindo toda desajeitada

o gosto que passa pela boca no movimento das letras escolhendo  o salgado, 
o doce, 
o apimentado, 
o insípido
seu eco ressoando no labirinto da escuta

o olhar que clama pela sua palavra  
ela não tem jeito de arrumar-se  para sair

a palavra lambuzada de bom humor que  faz do alfabeto  só riso
   
                                     têm aquelas ditas sem vergonha na massa da torcida  

e a força indescritível da palavra que se faz multidão pela causa digna que grita 

                                                                  a palavra que nem foi dita,
                            mas cujo  sinal de partida faz tudo ficar na medida exata!


- Por onde andam minhas palavras...


sábado, 15 de setembro de 2012

Chover


Chove
Caminhei entre as pedras no  quebra-cabeça da calçada
Ao desviar  as poças   para traçar um  caminho
Pisei num jardim?! 

Após a batalha com o vento
Ficou o tapete de pétalas abandonadas
 Experimentei cada passo com as  cores do chão
Sorri
Tão colorido ficou meu olhar desta chuva

Anoitece
A cor da chuva virou ritmo
Gotas que tocam o vidro
Gotas que tocam a vida

E a  primavera que se escondeu
Nos dias do mês que aguarda  sua estação
A magia não perdeu 
Fez o cinza do caminho virar passo com ritmo colorido

Quando  a vida  é  feita da amizade com o tempo
Pouco importa que ele  insista na companhia da solidão
Na batalha com a  rosa dos ventos
Encontramos o sentido de uma direção





domingo, 9 de setembro de 2012

Partir e ficar




No final de um sábado que se escondia entre nuvens recebo uma notícia triste.
A hora e o local da despedida de alguém que parte para sempre. De início pensei que não era de quem eu conhecia. Uma tentativa de habitar um equívoco e não viver o sentimento.

Mas era verdade. Daquelas verdades que não podemos contrapor argumentos. A morte não aceita ponderações em relação a  ausência de quem parte. Sensação de que numa rajada de vento a vida se esvai.

Resta    buscar o  sentido do que vivemos  com quem partiu  e permanece em nós.
Não era uma amiga de minha intimidade cotidiana, mas uma amiga da vida que se faz em elos do mundo que desejamos. 
A fazedora de redes da saúde Maria Cristina Carvalho da Silva.

Uma amiga  da vida pública, nas ruas, nos bares, nos serviços,  na universidade, em nós.

Determinada nas práticas de uma  psicologia digna do  que  a vida de brasileiros e brasileiras solicita.
Construtora de uma política de saúde mental que afirma o que queremos para a saúde da nossa cidade: um  Porto  para acolher quem sofre.
Inventora de estratégias educativas na  continuidade de uma política que ultrapasse as iniciativas de uns e outros para ser efetivamente pública.


Chegou o domingo e não tive coragem de ir até a despedida com hora e local marcados.
Nas letras  a busca de sentido para  ficar.
Um pouco de nós partiu.
Ela permanece na rede da vida que teceu e, assim, seguiremos   afirmando que somos muitos para acolher  a  loucura da vida.