quarta-feira, 30 de maio de 2012

Letras Perdidas



Num tempo que insiste em passar 
Escrever  toca  no tom que faz parar


Entre  delicadezas para acalentar
Invadem as asperezas da aceleração
Fazendo  das letras  solidão


Talvez nada a dizer
Pois o descompasso que entristece
Não faz a vida parar
Apenas silenciar




Mas as estações seguem
E a cada palavra que se perde
A vida prescreve
 


Como  podes te ausentar     
             Quando tanto preciso
             No alento de teu experimentar
             A tristeza ventar 
             Para com o alfabeto dançar





quinta-feira, 17 de maio de 2012

Mãe e o "quanto baste"




Já que as perguntas sobre  a existência humana são infinitas e, por vezes, angustiantes, nada melhor do que ter um dia certo, como o dia das mães, para celebrar quem demarca um lugar para nossa origem. Entre as celebrações de maio, mães por perto, outras que partiram, filhos que vieram e  a vida segue.

Cá estamos como adultos, afinal  não nos deixam ficar numa daquelas paradas deliciosas de ganhar mamadeira;   receber o sono  com um beijo e  uma história que adormece;   ou,  simplesmente, ter alguém contra quem se rebelar e depois voltar para seu colo sem pestanejar. Resta fazer das  duradouras lembranças ingredientes para percorrer e  degustar nossos próprios caminhos.

Entre mil delícias dos feitiços maternos culinários, retorna a cena de uma fábrica de biscoitos que, de tempo em tempo, invadia a cozinha da infância. As delícias quadradas, redondas, retangulares,  passavam por um grande forno de tijolos, no pátio da casa. Depois, latas de todos os tamanhos aguardavam a chegada de seus crocantes visitantes, mas a hospedagem era por poucos dias, pois os interessados em guiar estes viajantes eram vorazes!

Fazedoras ou não  de biscoitos, amantes da culinária ou da tele entrega, a arte do cuidado tem uma boa dose da sensibilidade materna. Assim, permanece na lembrança gostos dessa infância feita do intenso toque de mães que nos acompanham para sempre. No livro que ficou de herança, com papel amarelado pintado pelas mãos lambuzadas,  encontro a memória materna nos  ingredientes do  preferido “dedinho de mel”:

Ovos: Tudo parece tão óbvio, daquele  minúsculo “ovo”  um novo ser aparece com vida própria para afirmar o ciclo da sobrevivência. A façanha da gravidez acontece. Enquanto a mãe domina  o ato de nutrir no próprio corpo esta outra vida,  a “clara” e a “gema” fofocam no lado de  dentro, tramando  a mistura para nascer com um novo sabor.

Leite: Depois  de nove meses no lado de dentro,  passamos  para o   aconchego do contorno do corpo no lado de fora,   apreciando o precioso líquido que nutre a vida.

Mel. Dizem que é o único adoçante natural que não precisa  ser refinado. Perfeito! A doçura materna não precisa  de sotisficação ou  treinamento.

Manteiga. Está tudo muito bom mas quando se trata de uma  relação de tamanha intensidade é preciso   cuidar das saturações sentimentais. Se  virarmos uma  “manteiga derretida” o humor desanda e a gordura pode obstruir contatos. Seguimos em busca da medida certa nos deslizes que lambuzam  os  corações de mães e filhos com fortes emoções.

Açúcar Cristal. Mais doce? Pode até enjoar, mas aqui o açúcar é misturado com canela.  Então, quem ousa questionar duas das especiarias mais velhas do mundo: a canela e a doce determinação maternal!

Sal Amoníaco. Nunca ouviu falar? Algo como “no meu tempo se usava....”. Aquele argumento da experiência saudosa que insiste em revisitar a vida que passou. De qualquer forma, o tal sal amoníaco existe e carrega o segredo da crocância dos biscoitos. Portanto, uma pitada  da sabedoria   materna pode ser a química de uma boa história que  reaviva  o  presente.

Farinha de trigo. Até aqui os ingredientes estavam indicados com as medidas exatas em xícaras, colheres, gramas. Então, temos a conhecida  farinha de trigo que produz o  pão nosso de cada dia. Qual mãe negaria este alimento ao filho?! Mas logo na farinha a medida indicada é  “o quanto baste”. Qual é a dica? Mesmo que o cuidado materno vacile em deixar sua cria correr  mundo longe de seu olhar, no fim, o que mais deseja é  acompanhar a ousadia da figura que criou vivendo  sua própria experiência.

Porção: 500 biscoitos! A medida o  “quanto baste” movimentou bem mais que uma ou duas  xícaras de farinha na receita experimentada pela  filha e pelos netos. Muito mais que o esperado? E quem disse que temos uma dose suficiente de mãe na vida!


domingo, 6 de maio de 2012

Um amigo de giz



Eles se conheceram numa terra que percorre a história de suas vidas. Compartilhavam, na infância,  as mesmas ruas de vizinhança livre para brincadeiras de uma cidade de interior. 
Mas não registravam na memória a presença  de um e outro. 
Ela ali havia nascido e, quando jovem, mudou para outro destino. 
Ele ali circulava,  nas férias de cada ano,  com familiares que guarda no coração não importa a morada de seu destino. 
Já adultos, em tempos de natal, retornam ao conhecido e acolhedor lugar para celebrar passagens de novas vidas que o fim de ano vislumbra.


Então, são  apresentados pelo  acaso do olhar e do pedido de uma bala, uma goma de mascar, ou qualquer  coisa que adoçasse ainda mais o  movimento que trazia um tempo de infância. 
Nesta terra do sempre, foram presenteados com o encontro  de uma amizade sem lugar. 
Como o vento,  seguiram suas vidas  para outros  lugares, distantes  dali, distantes entre eles. 
Mas a  bússola da amizade  foi marcando a movimentação entre   ares  e terras.

Em dia  de ares frios de outono,  nela  chegou  um arrepio feito do toque   de tristeza. 
Como magia do pensamento, entre milhares de quilômetros,  o riso marcou a  hora exata de chegar.
O telefone tocou.
A voz do amigo trouxe   o bom humor para  fazer a  tristeza sorrir.  
Não bastasse o  toque de telefone que abraçou, outra notícia chegaria dias depois.

Ele não vacilou para expressar a sensibilidade masculina  com os dilemas femininos.  
Pensou  num lugar de lembrança que sempre  despertaria a alegria da amiga.
Um inusitado registro da inspiração que guia as palavras dela foi inventado. 
Fez do giz pó e, em  seus voos experimentais de piloto, lançou aos ventos para riscar grafias com os ares.
Os rabiscos  de ventos de giz pousaram entre as nuvens graças a singular amizade da terra do sempre.
Atos  que fazem a  vida sorrir em qualquer idade.