sexta-feira, 6 de março de 2015

Decantar


Quando alguém chega esbaforido com algo da vida, minha dica é:
"...deixe decantar ..."
Sinto um olhar ressabiado, afinal a pessoa não está a beber vinho, mas envolta em algo que duvida sobre  como proceder.
Diante da inutilidade de minha presença quanto a como prosseguir, 
sustento o silêncio e a respiração alongada.
Arrisco o encontro de um olhar.
Uma parada no cronograma da vida para habitar o tempo que não medimos. 
Experimentamos.

Ao invés de remoer um pensamento a respeito do que se deve ou não fazer, habitar um intervalo para deixar a vida decantar...

Um  ritual realizado antes de servir o vinho que  busca o primor de sua degustação. Portanto,  é necessário ser escolhida por um vinho, abrir a garrafa,  deixar que a história deste  líquido  se complete entre os ares de nossa respiração.
Estar atenta ao ar que lhe faz contorno, permitindo que o próximo respiro  alongue  o gesto que  conduz ao exercício de degustar.
Entrega ao tempo  sem hora, guiada  pelo   anúncio de que este líquido está vivendo o trajeto de  aproximar-se de seus lábios.

Talvez, já conheças este vinho e sabes do que se trata.
Mas e os humores?
Teus e da singular história desta garrafa que encontra tuas mãos? 
O aroma pode  nos embriagar de um passado que revisita o corpo como ressaca. Aquele zumbido incômodo que enuncia  a repetição do desgosto. Mas pode ser a embriaguez de deliciar  a sensação de querer mais e mais do que passou. É ali - no (des)gosto - que o pensamento se apega como forma de não vislumbrar que o tempo é feito de movimento.
"...deixe decantar..."
Habitar a intensidade da vida  é aceitar que a imprevisibilidade que tanto tentamos evitar é a única certeza que nos move.

Li que a passagem do vinho  de sua garrafa original para um decantador possibilita libertar os aromas que estavam contidos na garrafa,  ampliando a degustação de seu paladar.  
O vinho respira.

Para  decantar a  vida temos o exercício de libertar  o  tempo  planejado, acolher os ares da experiência e apreciar a vista no horizonte.
Deixar para trás os resíduos da explicação e degustar uma conversa solta e amiga, um abraço demorado, um olhar sem fim, uma música que embala, um respiro.

Perder-se no silêncio dos aromas...
E quando  o som  barulhento do pensamento se aproxima com a tarefa impossível de retornar ao que passou, escutar  o ritmo e  deCantar o ruído.
Respirar a melodia da vida acontecendo.
Saborear o líquido que fez da espera o motivo para experimentar  o sentido do presente.
Um mimo da vida.


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